(Daniel Dan/Pexels) O brasileiro já aprendeu o ritual. Quando o caixa aperta, corta-se remédio, adia-se obra, congela-se escola, revisa-se bolsa, reduz-se investimento. A palavra da moda muda conforme o governo, mas o sentido permanece. Ajuste. Responsabilidade. Contenção. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A conta chega sempre aos mesmos endereços. Só existe um bairro onde a tesoura parece perder o fio. A política. Enquanto o cidadão aprende a viver com menos, o orçamento reserva para 2026 uma soma de R\$ 11,3 bilhões para sustentar partidos e campanhas. São R\$ 6,4 bilhões para o Fundo Partidário e R\$ 4,9 bilhões para o Fundo Eleitoral. Onze bilhões e trezentos milhões. Uma cifra que costuma aparecer acompanhada de palavras elegantes como fortalecimento democrático, financiamento institucional e equilíbrio eleitoral. Traduzindo para o idioma da fila do posto de saúde, significa que há dinheiro que envelhece, mas não envelhece igual. Existe o dinheiro que entra na tesoura. E existe o dinheiro "imexível", como diria Antonio Rogério Magri. Sim, aquela velha expressão que entrou para o folclore político brasileiro voltou sem precisar ser pronunciada. Porque há algo de extraordinário quando se observa a engenharia criada ao redor desses recursos. Se houver irregularidade e multa, o teto da penalidade permanece limitado. E, em determinadas condições previstas, a quitação pode se estender por anos. Imagine explicar isso para quem atrasou imposto, prestação ou contribuição. Explique ao pequeno empresário que parcelamento tão generoso não existe para ele. Explique ao trabalhador que uma dívida comum não costuma receber tratamento tão compreensivo. Explique ao cidadão que a punição máxima, diluída no tempo, pode acabar parecendo mais taxa de condomínio do que sanção. E então aparece a pergunta inconveniente. Se o objetivo é proteger a democracia, por que a sensação recorrente é a de blindagem da máquina política. Porque democracia custa. Mas privilégio também. E o eleitor brasileiro vive preso nesse teatro curioso. Escuta que falta dinheiro para o essencial. Depois descobre que para o eleitoral sempre aparece uma rubrica resistente ao tempo, à crise e ao discurso fiscal. No fim, a lição não vem na urna. Vem no orçamento. Ali está escrito, sem slogan e sem marqueteiro, quem corta e quem permanece intocável. O cidadão aperta o cinto. A política afrouxa o prazo. Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo.