(Marcelo Camargo/Agência Brasil) O possível fechamento de agências dos Correios, no contexto do plano de reestruturação da estatal, chama atenção para um debate que vai além da crise financeira. O tema envolve governança, estratégia, inovação, eficiência e preservação do valor público. Os Correios não são uma empresa qualquer. Sua capilaridade nacional, sua presença em regiões onde o mercado nem sempre chega e seu papel logístico e social fazem da instituição uma estrutura essencial para milhões de brasileiros. Por isso, qualquer decisão de redução de unidades precisa ser analisada não apenas pela ótica contábil, mas também pelos impactos sobre cidadãos, trabalhadores, territórios e serviços. É evidente que empresas públicas precisam ser eficientes, sustentáveis e responsáveis na gestão de seus recursos. Ignorar déficits, custos elevados, perda de competitividade e necessidade de modernização seria um erro. No entanto, enfrentar a crise apenas com cortes pode ser insuficiente quando o desafio real exige revisão do modelo de negócio, inovação, planejamento estratégico e transparência. O fechamento de agências pode representar economia imediata, mas também pode ampliar desigualdades de acesso, especialmente em localidades mais vulneráveis ou com menor presença de alternativas privadas. A questão central, portanto, não é apenas quantas unidades serão fechadas, mas quais critérios orientam essas decisões, quais impactos foram avaliados e como serão mitigados. A boa governança pública exige mais do que ajuste financeiro. Exige dados, indicadores, escuta dos públicos afetados, gestão de riscos, controle, prestação de contas e compromisso com a função social da empresa. Também exige coragem para modernizar processos, ampliar soluções digitais, fortalecer a logística e buscar novas fontes de receita sem abandonar a missão institucional. Nesse contexto, a agenda ESG não é acessória. Ela se conecta à sustentabilidade institucional, ao impacto social, à relação com trabalhadores e usuários, à transparência e à responsabilidade na tomada de decisão. Em empresas públicas estratégicas, governança não protege apenas o resultado econômico; protege também a confiança social e o interesse público. O caso dos Correios mostra que governança não é burocracia. É capacidade de decidir melhor, quando o cenário é difícil. É equilibrar prudência para controlar riscos e coragem para enfrentar modelos ultrapassados. Em tempos incertos, a boa governança transforma crise em oportunidade de reconstrução. E, no caso dos Correios, essa reconstrução precisa considerar não apenas a conta que fecha, mas o serviço público que permanece. *Alessandra Franco. Secretária de Administração da Câmara Municipal de Santos, advogada, pedagoga, mestranda em Políticas Públicas e integrante do Programa Conselheira 101