(Evan Novostro/Adobe Stock) Acompanhei com curiosidade entusiasmada a visita de operadores portuários e autoridades santenses à Coreia do Sul, através da competente cobertura da TV Tribuna e de A Tribuna. Os meandros do milagre econômico da face capitalista da península asiática foram rastreados a partir da educação como motor e tecnologia estratégia de inserção no mercado externo. O saber disseminado no pós-guerra se associou a uma reforma agrária, mesmo sob uma ditadura de mercado, contraponto à vizinha comunista. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A consequente industrialização levou o pequeno país espremido entre o mar do Japão e os gigantes vermelhos a se tornar um “tigre high tech”. As reformas de Jango não se distanciavam dos preceitos daquela Coreia. Aqui, ficou-se na ditadura sem os benefícios que Seul implementou. A Educação, enfatizo, virou uma obsessão para fazer da atrasada colônia nipônica um player planetário. Um país do tamanho de Pernambuco representando a 13ª economia do mundo não foi fruto do decantado neoliberalismo, capitalista sim! Mas com grande protagonismo do Estado e planejamento por quatro gerações. Protecionismo e subsídios hoje condenados foram sustentáculo do seu espantoso êxito. O que depreendi da série é a sustentabilidade aliada à mecanização. Não existe negacionismo ambiental na Coreia, tão vulnerável às vicissitudes naturais. Ali, tradição milenar e o mais avançado parque cibernético convivem dentro da sábia harmonia oriental. Da minha parte, ressalto outro componente estratégico para a Coreia: a Cultura como fator de coesão social e “commodity”. Eles têm exportado conteúdo intelectual, entretenimento, fenômenos comportamentais e economia criativa sem perder o lastro da Arte como poder de influência, o chamado “soft power”. A onda coreana ganhou o planeta com um ritmo esfuziante, acompanhado de apetrechos, configurando uma febre pop que é só a ponta de uma política pública de incentivo do comercial ao erudito, que tem investido 3% dos trilhões de tudo que a Coreia produz. Cada aldeia é um centro cultural, com a literatura promovida em todas representações diplomáticas. Na nossa Avenida Paulista mesmo, há um atuante espaço de exibições das suas culturas. A Coreia tem promovido a indústria cultural fosse um esforço de guerra! O cinema coreano, de uma beleza lírica desabrida, tem apoio. Lá ninguém blasfema contra artistas e leis de incentivo. Posso citar filmes como Poesia e Parasita, pérolas desse porto de ideias. Talvez a Coreia ganhe um Nobel de Literatura antes do Brasil; o governo faz justo lobby pelos seus escritores. Hoje, o filósofo que mais faz minha cabeça é um coreano: Byung-Chul Han, que recomendo com paixão. Longe dos nacionalismos, a Coreia soube captar o melhor do Ocidente sem perder a essência . Receptiva a influências sem perder a ancestralidade. Um bom exemplo do que a Coreia projeta: em 2023, assisti por um canal erudito a execução pela sua Orquestra Nacional regida por um robô! Sim, um robô conduzindo clássicos! Simulando gestualidade, ele mostrou a habilidade mecânica de um maestro, mas sem capacidade de improviso e sem o sabor humano de um Karajan . A experiência é retrato dessa nação que aposta radicalmente na inovação sem perder seu espírito eterno de delicadeza e humanidade. A tecnologia deve servir a alma, do contrário perdemos razão de ser. *Flávio Viegas Amoreira. Escritor e membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande