(Prefeitura de Lisboa/Divulgação) Como um monumento consegue guardar tantas histórias ao mesmo tempo? Foi exatamente isso que senti diante do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa. A monumental pedra imóvel parecia, para mim, ter um movimento invisível, como se cada personagem esculpido continuasse narrando seu fado. O rio Tejo seguia tranquilo, e eu imaginava quantas embarcações partiram dali carregando sonhos, ambições, medos e certezas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Entre todas as figuras, meu olhar voltou várias vezes para o príncipe, colocado à frente de todos, segurando uma pequena caravela como quem convida os demais a seguir viagem, o Infante D. Henrique. Enquanto o observava, ocorreu-me que a juventude talvez não seja uma questão de idade, mas de espírito. Naquela escultura, algo lembrava o impulso dos jovens, sempre dispostos a partir antes de ter todas as respostas, trocar a segurança da casa pela promessa de um horizonte distante e a confiança na existência de um mundo maior, à espera de ser encontrado. A juventude também é uma espécie de jornada. Lembrei da frase do compositor que escreveu, “Como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel, o que é paixão”. Há uma verdade desconfortável nessas palavras. Quando somos jovens, confundimos intensidade com profundidade. Achamos que vale a pena aquilo exigido com sacrifícios e desafios. Essa intensidade cega, parece moldar o espírito dos desbravadores gravados na rocha. Em meio à sucessão de reis, navegadores, cartógrafos e missionários, há apenas uma mulher, a Rainha Filipa de Lencastre. Sua presença discreta talvez seja uma das mais significativas do conjunto. Mãe da chamada Ínclita Geração, tornou-se símbolo da formação moral e intelectual dos condutores de Portugal no período das grandes navegações. Sua figura recorda muitas mulheres que permanecem à margem dos relatos oficiais, embora fossem elas, muitas vezes, o porto seguro de onde partiam as grandes viagens. Enquanto caminhava por ali, percebi que estava aprendendo a olhar para as coisas sem a necessidade de transformá-las em heróis ou vilões absolutos. A imponência daquele monumento me fez pensar nos navegadores portugueses e nas viagens que fazemos sem sair do lugar. Saí dali olhando mais uma vez para o Tejo. As águas seguiam seu curso, indiferentes às glórias e aos fracassos dos homens. Talvez amadurecer seja compreender a presença discreta e imponente da Rainha ali eternizada, permitindo que a juventude do coração continue existindo, sem precisar enxergar apenas o cruel ou a paixão, e sim descobrir beleza na dúvida, na memória, no silêncio, porque as travessias jamais terminam. Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.