(Fabiola Sinimbú/Agência Brasil) Quando as luzes da COP30 se apagarem e o silêncio ocupar o lugar dos discursos, Belém permanecerá. E será inevitável perguntar: o que foi deixado? Raízes que sustentam ou fachadas que se desfazem na primeira chuva? A cidade se prepara para receber olhares do mundo. Tinta fresca cobre paredes como quem esconde rachaduras, avenidas recebem asfalto novo, andaimes se apressam contra o tempo. Mas, a poucos quarteirões do centro, a lama ainda dita o passo. Uma moradora avança com cuidado, equilibrando sacolas para proteger o único par de sapatos novos do ano. Ao lado, o cheiro de mangue sobe, indiferente à pressa dos calendários oficiais. O custo real não cabe nas planilhas de investimentos. Ele se mede nas prioridades escolhidas, na coragem de enfrentar problemas crônicos e no legado que permanece depois que o último visitante embarca. Dados revelam diárias de hotéis infladas, saneamento ainda distante da universalização, obras que florescem nas áreas vitrine enquanto as periferias continuam à margem. Mas não precisa ser assim. A COP30 pode ser um ponto de virada se governança, inclusão social e compromisso ambiental forem mais que slogans. O caminho está traçado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e nos princípios ESG: transparência, priorização dos mais vulneráveis e investimento permanente em infraestrutura verde e na economia real da Amazônia. A floresta sabe ensinar. Conhece a paciência das águas lentas e a resiliência das raízes profundas. Belém pode aprender, ouvindo ribeirinhos, fortalecendo a produção local, investindo onde a vida pulsa e não apenas onde as câmeras enxergam. O risco é confundir modernização com maquiagem, progresso com espetáculo. Quando a conferência se encerrar, restará a pergunta: a que preço? Se a resposta for inclusão efetiva e políticas que resistam ao tempo, haverá um legado. Caso contrário, Belém guardará apenas a lembrança de um brilho breve refletido no Rio Guamá, uma luz bonita, mas passageira, que se apagará antes mesmo de tocar as raízes. *Alessandro Lopes. Arquiteto, mestre em Direito Ambiental, pesquisador em Cidades Criativas e Inteligentes.