A sexta-feira chega disfarçada de alívio. Promete sofá, descanso e vida organizada. Mas, para quem passou a semana adiando o inevitável, cobra a conta: roupa, comida, limpeza e coragem. No papel, tudo simples; na prática, troca-se o crachá pelo avental. Na entrada do prédio, encontrei dona Maria com cara de notícia ruim. Arrisquei otimismo: — Oi, dona Maria! Enfim, sexta. Agora começa o segundo turno: casa, roupa, comida e paciência. — É, meu filho... só que o prédio está sem água. Meu fim de semana desabou. A roupa suja cresceu na imaginação, as marmitas perderam o tempero e o hidrômetro, mudo, confirmou: a água simplesmente não atravessava o portão. Em casa, enfrentei a epopeia moderna: falar com um atendente. Música de espera, mensagens automáticas e a frase “sua ligação é muito importante para nós”, dita com a emoção de torneira seca. Quando enfim alguém respondeu, veio a sentença: o abastecimento do bairro estava normal. Normal? Talvez “normal” significasse “problema seu”. Pedi um técnico. O técnico veio, olhou tudo e concluiu: — Aqui não há problema. — Então, como a água não chega? A resposta não veio; também devia estar sem pressão. Mais tarde, encontrei dona Maria subindo ao terceiro andar com sacolas de garrafas d’água. Ajudei-a, e ela desabafou: — Moro aqui há vinte anos e nunca tivemos isso. Foi só venderem a empresa que a novela começou. Dona Maria tinha razão. Em vez de resolverem a falta d’água onde ela sempre existiu, o problema parecia ter ganhado mobilidade urbana: subiu escadas e bateu em novas portas. — Meu filho, já pensei na solução — disse dona Maria. — A gente leva a roupa para a praia. Lá tem chuveiro, varal a céu aberto, vento do mar e, ao que parece, água com compromisso público. Olhei para dona Maria como quem acaba de ouvir uma proposta absurda, mas perigosamente razoável. — Dona Maria, do jeito que as coisas estão, a senhora pode ter acabado de inventar a solução oficial do bairro. — Então pega o saco de roupa, o shampoo e o sabonete — respondeu ela. — Se a água não vem até nós, nós vamos até a água. E assim terminou nossa conversa: sem água no prédio, mas com uma alternativa turística, ecológica e quase revolucionária. Se o abastecimento não é garantido, ao menos restam a paisagem, o vento e um marketing natural convincente. Só falta oficializar a placa na praia: “Área de banho, lavagem e contemplação — serviço sujeito à maré, mas aparentemente mais estável que o encanamento”. *Sergio Rezende Peres. Cronista e contista