[[legacy_image_298204]] Pesquisa realizada em agosto último pelo Instituto da Democracia (IDDC-INCT), com financiamento do CNPq, Capes e Fapemig, dentro do projeto A Cara da Democracia, revela a opinião dos brasileiros sobre temas polêmicos. Uma leitura apressada mostra que o conservadorismo prevalece: afinal, 79% são contra a legalização do aborto, 70% mostram-se também contrários à descriminalização do uso de drogas, enquanto 65% posicionam-se a favor da redução da maioridade penal. Análise mais atenta revela, entretanto, aspectos importantes. Embora a quantidade de pessoas que são contrárias à legalização do aborto tenha aumentado nos últimos cinco anos (passando de 73% a 79%), movimento inverso é registrado quanto à redução da maioridade penal (queda expressiva de 81% para 65%). Note-se ainda que a maioria (59%) é contra a prisão de mulheres que interrompem a gravidez e 53% são favoráveis à adoção de uma criança por um casal gay. O casamento civil entre pessoas do mesmo sexo também é aprovado por uma pequena margem (46% a 44%), mas destaque-se que, há cinco anos, a rejeição a essa união era bem maior (51% a 38%). Quando se aborda o tema da economia, os resultados não são favoráveis ao que se poderia chamar de conservadorismo liberal. 53% dos entrevistados na pesquisa não concordam com as privatizações no setor público (apenas 29% são favoráveis), revelando que o brasileiro não envereda pela cartilha ultraliberal, ao estilo do candidato à presidência da Argentina, Javier Milei. No plano da política, é arriscado dizer que o Brasil está dividido entre direita e esquerda, levando em conta os resultados da última eleição presidencial. O centro teria desaparecido, como passe de mágica? Duvido. As condições peculiares da política nos últimos anos (desgaste dos partidos, dos políticos tradicionais, as acusações de corrupção) pesaram muito mais. Muita gente votou em um dos dois candidatos (Lula e Bolsonaro) porque não queria, de jeito nenhum, que o outro vencesse. Há ainda o complicado Congresso Nacional. Todos afirmam que sua composição atual (notadamente a da Câmara dos Deputados) revela o predomínio nítido do conservadorismo, em proporção maior do que em legislaturas anteriores. Isso é verdade, mas é preciso levar em conta como são eleitos os deputados no Brasil. Embora não adotemos o sistema distrital, as pessoas escolhem seus candidatos baseados em critérios pouco (ou nada) ideológicos: exceto nos grandes centros, predomina a questão paroquial. Os eleitores querem deputados que defendam interesses locais, mesmo que isso represente a adesão sistemática aos governos. O Centrão, majoritário há muito tempo, é espelho e consequência disso. Não surpreende, portanto, que a atividade dos parlamentares tenha raízes e se mantenha aferrada aos velhos esquemas – populismo, coronelismo, clientelismo – nos quais a direita sempre predominou e se destacou. Deve ainda ser levado em conta o avanço nos últimos anos da bancada evangélica, muito alinhada aos temas mais conservadores. Há vários Brasis, principalmente quando são consideradas as diferenças regionais, o abismo socioeconômico e cultural, as profundas transformações e crises por que passamos. A postura conservadora existe, mas não tão forte ou hegemônica como muitos afirmam.