(Unsplash) Nunca se falou tanto sobre amor — e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil sustentar um relacionamento. O aumento dos divórcios no Brasil e o crescimento de pessoas solteiras no mundo não são apenas estatísticas. São sinais de uma crise silenciosa que atravessa o emocional de uma geração inteira. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas, na minha visão, não estamos diante de uma escassez de amor. Estamos diante de uma desconexão profunda com nós mesmos. Tenho acompanhado, ao longo dos anos, pessoas que desejam viver relações saudáveis, mas que ainda não conseguem sustentar a própria verdade emocional. Existe um vazio entre o que se sente e o que se consegue oferecer. E, na tentativa de preencher esse espaço, o outro passa a ser visto como solução — quando, na realidade, ele apenas revela o que ainda não foi olhado. Vivemos uma era de relações rápidas, intensas e descartáveis. Conecta-se com facilidade, envolve-se com pressa e se desiste na primeira frustração. Criou-se a ilusão de que sempre haverá alguém melhor disponível, mas, no fundo, o que cresce é a dificuldade de permanecer, aprofundar e construir. Os conflitos que hoje assustam não nasceram agora — eles apenas deixaram de ser escondidos. As pessoas não falham em amar. Falham em se sustentar emocionalmente dentro daquilo que sentem. Carregam medos, inseguranças e padrões que se repetem, muitas vezes sem consciência. O emocional não busca o que é saudável. Busca o que é familiar — mesmo que isso doa. Também vejo um movimento perigoso: exigimos do outro maturidade, presença e equilíbrio que, muitas vezes, ainda não desenvolvemos em nós. Espera-se muito, entrega-se pouco. E o relacionamento se transforma em um campo de cobrança, não de construção. Mas é preciso dizer: não nos relacionamos apenas como indivíduos, mas como histórias. Carregamos rejeições, ausências e dores que continuam influenciando nossas escolhas — até que sejam, de fato, encaradas. Ainda assim, existe um caminho. E ele não começa no outro. Relacionamento saudável começa quando paramos de nos abandonar para sermos aceitos. Quando deixamos de chamar de amor aquilo que, na verdade, sempre foi dor. O amor que sustenta não nasce da carência. Nasce da consciência. E talvez esse seja o maior desafio do nosso tempo: parar de procurar fora aquilo que só pode ser construído dentro. Lili Gonzalez. Terapeuta, mentora e professora com atuação em Desenvolvimento Emocional.