(Divulgação) Com todo respeito ao inglês Robert Harris, jornalista e autor do livro homônimo que deu origem ao filme Conclave, tenho que dizer que a fita é um déjà-vu do desconcertante pensamento religioso de Honoré de Balzac. Nada sobre isso é oficialmente declarado. Porém, alguns momentos do roteiro nos remetem à obra do romancista francês. Falas, diálogos e cenas do filme acordam ideais e reflexões balzaquianas adormecidas em quem estuda e conhece A Comédia Humana. Durante a homilia, o chefe do sacro colégio, cardeal Lawrence (Ralph Fiennes) faz um tributo à dúvida. Aliás, o longa-metragem todo é um convite à celebração da dúvida. Ele diz mais ou menos assim: “o próximo papa não pode ter certezas. Sem a dúvida, a fé não tem sentido”. E segue afirmando que o papa é um ser humano como todos os mortais e que seria legítimo sua santidade ser tentada a duvidar da própria fé e da própria capacidade de ocupar o trono de Pedro. Explica que a existência de Deus é certa e que o comportamento da Igreja é que deve despertar dúvidas, ser questionado, acenando para um erro de percurso e para o urgente resgate do cristianismo primitivo. Balzac faz isso em alguns de seus livros mais conhecidos. Convoca o leitor a refletir sobre as “verdades” da Bíblia. Usa sua pena para fazer uma revolução na espiritualidade humana. Reflexões semelhantes às sugeridas pelo filme podem ser encontradas por quase toda obra balzaquiana. Destaco O Médico Rural, O Cura da Aldeia, O Avesso da História Contemporânea, Jesus Cristo em Flandres, Serafita, Sarrasine e Ilusões Perdidas. Em Ilusões Perdidas, Eva, a irmã de Lucien de Rubempré pergunta ao marido: “que vale um anjo que não pode ser tentado?” Ela se refere a Lucien, poeta e arrivista em Paris. A população de padres, bispos e cardeais que circula pela Comédia Humana é grande. E a maioria é usada para fazer ataques, especialmente, à Igreja Romana. Não por acaso, Balzac foi o escritor francês mais condenado pela Santa Sé no século 19. Teve 18 obras censuradas quatro vezes pelos censores do Index- catálogo de livros proibidos pela Igreja Católica, extinto só em 1966 pelo papa Paulo VI. Em 1846, quem diria, já famoso, Balzac foi recebido em audiência pelo papa Gregório XVI (pontífice de 1831 a 1846). Ele conta sobre essa visita à Santa Sé numa carta a sua irmã, Laure. Diz que naquela mesma semana teria tido um segundo encontro com sua Santidade, não fosse sua agenda cheia de compromissos literários. No final de Conclave, a surpresa do papa escolhido nos remete a Sarrasine, novela que fez de Balzac o primeiro romancista a tocar na questão da identidade de gênero na literatura. Enfim, saí da sessão de Conclave satisfeito com o que vi, tomado por uma paródia do sinal da cruz: em nome de Balzac, da Comédia Humana e da revolução espiritual que nunca chega, amém! *Lucius de Mello. Doutor em Letras pela USP e Sorbonné Université - Paris, e autor da tese A Bíblia segundo Balzac: Deus, o Diabo e os heróis bíblicos em A Comédia Humana