(Imagem ilustrativa/Pexels) Não sou filósofo (aliás, condição que me liberta da obrigação de compreender o mundo), mas arrisco cravar que, das mazelas humanas, o autoengano é a pior delas. Não por ser a moralmente mais reprovável, mas porque nos impede de lapidar qualquer virtude e, principalmente, de superar qualquer defeito. Vale para pessoas; vale para governos. Se alguém é dependente químico, a solução é se livrar das drogas, e não “comunicar melhor”. Se o governo gasta demais e gera inflação, corrói salários e transforma pobres em cada vez mais pobres, a solução é austeridade, e não “comunicar melhor”. O autoengano do governo o impede de fazer o que deve ser feito. E o mantra não muda: tudo se resolverá quando a comunicação melhorar. Não tem funcionado; não irá resolver. E a fé na “comunicação panaceia” permanece inabalada, ainda que seja absoluto equívoco. Trocar a expressão “morador de rua” por “pessoa em situação de rua” não resolveu essa tragédia social. Substituir “preso” por “pessoa privada de liberdade” não mitigou o poder de facções criminosas dentro do sistema penitenciário. Não serei enfadonho com o caro leitor, chega de exemplos. Sob o guarda-chuva do autoengano, está o hábito de assumir autoria dos bônus e terceirizar a culpa pelos ônus. O dólar subiu? Então a culpa é do mercado financeiro, da direita fascista ou, quem sabe, dos sentineleses (habitantes da Ilha de Sentinela do Norte e considerados o povo mais isolado do mundo). O dólar caiu? Resultado da ímpar habilidade da equipe econômica do governo em conduzir o câmbio. O exemplo mais recente - e patético - foi a narrativa do governo dada às posturas do ex e do atual presidentes do Banco Central - BC. Para o governo, o ex-presidente do BC promoveu o aumento da taxa Selic a serviço do mercado financeiro e contra os interesses do País. Ironicamente, os aumentos da Selic sob a gestão do novo presidente do BC (indicado pelo atual governo) foram mais expressivos. Dessa vez, segundo o governo, buscando os interesses do País. Nas entrelinhas de Maquiavel, é possível extrair a ideia de que só devemos acatar conselhos quando nosso conselheiro tem algo a perder caso a coisa dê errado. Como, na qualidade de cidadão, tenho a perder com a alta da inflação, segue meu pitaco para o governo: qualquer que seja o caminho a ser escolhido, a estrada tem que ser asfaltada com austeridade. Comunicar melhor é fundamental. E se não há algo bom a comunicar? *Coronel da PM, advogado e escritor