(Vanessa Rodrigues/AT) Neste semestre está prevista a divulgação dos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que avalia a qualidade da Educação Básica no país, trazendo celebração entre estados, municípios, redes e escolas que melhoraram seus desempenhos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Entretanto, o Ideb não captura todas as lacunas na garantia do direito à educação. O aumento no índice de uma escola ou da rede não significa que todos os estudantes tiveram uma trajetória regular, sem repetência, reprovação, abandono ou evasão. Os esforços atuais em avaliações ainda falham em identificar os estudantes que estão sendo deixados para trás, especialmente quando se considera o nível socioeconômico e a cor/raça. A pesquisa “A permanência escolar importa: indicador de trajetórias educacionais”, realizada pela Fundação Itaú com Chico Soares, Izabel Costa da Fonseca, Clarissa Guimarães e Maria Teresa Gonzaga Alves, revela que quase metade dos estudantes brasileiros nascidos entre 2000 e 2005 não chegaram ao 9º ano do Ensino Fundamental com uma trajetória regular. Garantir uma trajetória regular exige melhorias radicais nos anos finais do Ensino Fundamental e uma abordagem das desigualdades além das médias. Apenas 38% dos estudantes mais pobres completaram do 1º ao 9º ano na idade certa, em contraste com 69% dos estudantes de nível socioeconômico mais alto. As desigualdades raciais são ainda mais marcantes: apenas 23% dos indígenas e cerca de 44% dos negros mantêm uma trajetória regular, enquanto para brancos o índice é de 62% e para estudantes com deficiência é de 22%. Concluir o Ensino Fundamental na idade certa parece uma pauta que já deveria estar superada, considerando os avanços da universalização do acesso. Porém, os dados nos convidam a refletir. Em que medida os jovens do 6º ao 9º ano se sentem acolhidos, valorizados, pertencentes, estimulados a aprender? Como as escolas podem engajar adolescentes, que enfrentam transformações pessoais e acadêmicas, e garantir uma educação integral? A qualidade da trajetória escolar está diretamente ligada à capacidade de acolher e engajar adolescentes em toda a sua pluralidade e intensidade, com a perspectiva efetiva de uma educação integral. Na ocupação Machado de Assis, realizada este ano em São Paulo, educadores e estudantes, ao discutirem o livro Conto de Escola, ilustraram bem os desafios e caminhos para uma escola que desperta curiosidade e faz sentido para adolescentes. No conto de Machado, o menino Pilar “ardia por andar lá fora” da escola, pois se sentia preso nela, “sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos”. Dentro e fora do Brasil já temos experiências que mostram como desenvolver uma experiência engajadora e com muito aprendizados para adolescentes nos anos finais. Que o debate público educacional possa estimular caminhos e políticas para que a escola garanta permanência, pertencimento e aprendizado. *Patricia Mota Guedes. Superintendente do Itaú Social, mestre em Políticas Públicas e em Administração Pública, graduada em Ciências Políticas