<p data-end="505" data-start="129">O Colégio Leão XIII, em Santos, se inscreve nesse conjunto de instituições cuja existência se conserva mais na memória difusa do que na solidez dos arquivos. Do seu passado subsistem, sobretudo, vestígios fragmentários: pequenas notas em jornais antigos, anúncios escolares, nomes que emergem e se dissipam como se a própria cidade os tivesse deixado cair no decurso do tempo.</p> <p data-end="991" data-start="509">Situado no Embaré, o colégio surgiu num contexto histórico em que a educação ainda se revestia de um inequívoco sentido moral e cívico. A designação não é despicienda: Leão 13, pontífice da Rerum Novarum, corporizava a tentativa da Igreja de intervir no debate social moderno, especialmente no que respeita ao mundo do trabalho. Em Santos, cidade portuária, industrial e marcada por intensas dinâmicas migratórias, tal referência adquiria uma ressonância particularmente expressiva.</p> <p data-end="1412" data-start="995">Associado ao Círculo de Trabalhadores Cristãos do Embaré, o estabelecimento integrava uma tradição de pedagogia católica orientada para os meios urbanos e operários. As suas práticas diárias, hoje inteiramente dissolvidas, compunham a textura discreta da vida citadina: festividades escolares, celebrações litúrgicas, breves apontamentos na imprensa local que, lidos retrospectivamente, ganham uma estranha densidade.</p> <p data-end="1768" data-start="1416">Para muitos dos seus antigos alunos, o que persiste não são tanto os conteúdos lecionados, mas antes um conjunto de impressões sensoriais persistentes: corredores alongados, vozes distantes, o odor do giz, a luz oblíqua filtrada pelas janelas. A escola, como tantas outras do seu tempo, existiu sobretudo nesse domínio silencioso da experiência vivida.</p> <p data-end="2062" data-start="1772">Com o passar dos anos, Leão 13 foi perdendo centralidade, à semelhança de numerosas instituições educativas coevas. Subsiste, porém, como uma memória inquieta do Embaré, uma presença quase sem corpo que ainda atravessa a cidade muito depois de o seu dia-a-dia ter sido absorvido pelo tempo.</p> <p data-end="2305" data-start="2066">Não me é possível ser indiferente, porque ali fui, sem hesitação, profundamente feliz. Sinto saudade dos colegas, dos professores e daquela atmosfera feita de pequenas cumplicidades e rotinas partilhadas, hoje já distante, mas não apagada.</p> <p data-end="2482" data-start="2309">Daqui, neste exílio discreto, envio um cumprimento caloroso a todos. E, sem necessidade de autoridade alheia, apenas isto: a saudade não explica o passado, mas insiste nele.</p> <p data-end="2524" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2486"><em data-end="2524" data-is-last-node="" data-start="2486">*Rui Calisto. Investigador e escritor</em></p>