Nos idos de 1992, dirigindo pelas arborizadas estradas da Galícia, ansioso para chegar à terrinha de meu avô, apresentei meu passaporte na fronteira com Portugal a um gajo inspetor. Ao avaliar o documento, ele pediu que o acompanhasse até o escritório. Fiquei apreensivo. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Sem negar sua origem lusitana, ele mostrou seu documento de identidade — estranhei — pois era autoridade. Seu primeiro nome era igual aos meu e o mais incrível foi constatar que a data de nascimento era idêntica à minha: dia, mês e ano. Encontrei um irmão gêmeo de pais diferentes. Ele era eu em Portugal e eu era ele no Brasil. Oh pá! A sensação foi estranha. Pensei: por que ocorre esse instante único? Existem no mundo várias pessoas que nasceram no mesmo dia que eu, mas com o mesmo nome talvez seja somente ele. Foi como achar uma agulha no palheiro. Tenho mais um episódio curioso: meu sogro, em viagem pela Alemanha, ao entrar no elevador, conheceu uma senhora espanhola. Ao notar que ele era brasileiro, disse que seu irmão Pablo residia no Brasil. Meu sogro, amante de uma prosa, perguntou de qual cidade ele era. Ela respondeu: “São Roque, uma pequena cidade do Estado de São Paulo”. Meu sogro se admirou, porque era onde eu residia. Depois revelou que ele era empreiteiro-construtor de casas. O mais incrível: eu estava construindo uma casa cujo empreiteiro era o irmão dela. Como pode ocorrer tamanha coincidência? O que pode explicar o fato de ambos se encontrarem em um país diferente, em um determinado instante, em um elevador, em um lugar que ambos jamais tinham visitado e não retornariam? Por segundos, eles não teriam se conhecido. De tempos em tempos, nos deparamos com coincidências. Algumas são mais óbvias, outras improváveis e até inimagináveis. Sempre que isso ocorre, imediatamente, em um instante, algo acontece em nossa mente e corpo. Pode ser um sentimento agradável, de felicidade, ou nem tanto. Por vezes, é o oposto, causando tristeza ou raiva. Há quem não acredite em coincidências. Para o professor de matemática e autor do livro Fluke: The Maths and Myths of Coincidences, Joseph Mazur, tudo se resume a probabilidades, até nos casos mais inacreditáveis. É de Albert Einstein a frase: “Coincidência é o nome de Deus quando ele quer permanecer anônimo”. Os espanhóis, por sua vez, convivem com um ditado popular galego, muito conhecido: “No creo en brujas, pero que las hay, las hay”. A repetição inesperada de algo, ou um fato inimaginável, não é comum. Mas não sabemos por qual motivo elas ocorrem. É sorte, é azar ou simplesmente é a vida?