Julio Florencio Cortázar (Reprodução) Nos primeiros dias do ano de 1916, o renomado decorador portenho Luis Descotte Jourdan deixou a segunda família na estação de Zurique, na Suíça, e pegou o trem rumo a Barcelona. No trajeto, renovou a promessa de que um dia voltaria para os braços de Victoria. Beijou-a carinhosamente. Beijou a filha Maria, passou a mão na cabeça do neto de dois anos que apelidou de Cocó, e deu um abraço tímido na netinha recém-nascida Memé. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No dia seguinte, embarcou num navio, com o pensamento na primeira mulher que deixara em Buenos Aires, para a qual corria de braços abertos e a quem, em pensamento, prometera dar um fim no romance que já durava 18 anos com “a outra”. O decorador era herdeiro do pai na Compañia Nacional de Muebles, de Buenos Aires. Fez toda a decoração do Teatro Colón, do prédio do Palácio Legislativo, e de residências de famílias argentinas abastadas e de ricos imigrantes espanhóis. A bordo, não queria pensar em nada. Teria muitos dias pela frente e estava livre para aliviar a tensão do que poderia acontecer quando chegasse em casa. Os dias passaram. O navio faria escala no Porto de Santos antes de seguir para Buenos Aires. Mas o destino tinha outros planos para ele e para centenas de vidas a bordo do Príncipe de Asturias, orgulho da frota espanhola. Na madrugada de 5 de março de 1916, o navio bateu num rochedo em Ilhabela e naufragou em cinco minutos. Luis Descotte foi um dos mortos. Ele deixaria uma viúva em cada lado do oceano. Seu corpo foi identificado pela barba e pelas iniciais L.D. numa camisa. E foi sepultado no Cemitério da Filosofia, em Santos. A família da Europa retornaria à Argentina um ano depois. O menino Cocó e a irmã foram criados pela mãe, que o marido abandonou, e pela avó materna, viúva do decorador. Por um tempo ele teve dificuldades no aprendizado, mas foi crescendo e lia tudo o que encontrava pela frente. Desde cedo, escrevia contos que a família julgava como cópias de algum livro. Ele diria mais tarde: “Minha mãe foi muito imaginativa. Não era culta, mas era incuravelmente romântica e me iniciou nas novelas de viagens. Com ela li Julio Verne. Sua imaginação me abria portas. Tínhamos um jogo - olhar o céu e buscar a forma das nuvens e inventar grandes histórias. Meus amigos não tinham essa sorte. Não tinham mães que olhavam as nuvens”. Ao deixar a segunda família na estação de Zurique para embarcar na viagem fatídica do navio, o renomado decorador portenho jamais imaginaria que o neto Cocó, que mal conhecera, viria a se tornar um dos maiores escritores de língua espanhola do mundo. Cocó, na verdade, era Julio Florêncio Cortázar, ou simplesmente Julio Cortázar, o premiado autor de obras famosas como Histórias de Cronópios e de Famas, O Jogo da Amarelinha, Todos os Fogos o Fogo e Octaedro. Essa e outras histórias reais estão descritas em meu livro Príncipe de Astúrias - O Mistério nas Profundezas, uma pesquisa de 25 anos sobre o maior desastre marítimo de todos os tempos no Brasil e na América Latina. José Carlos Silvares. Jornalista e escritor.