(Reprodução) Quando falamos em cirurgia ortognática, é comum pensar primeiro na correção da mordida e em questões funcionais. Mas há outro aspecto importante: ao reposicionarmos os ossos da face, também podemos produzir mudanças na aparência. Isso acontece porque maxila e mandíbula sustentam os tecidos moles e influenciam o perfil, os lábios, o sorriso, o contorno e as proporções do rosto. Muitas vezes, uma queixa considerada apenas estética pode ser a manifestação de uma alteração dentofacial. O paciente chega ao consultório incomodado com o queixo, o perfil, um sorriso gengival ou uma assimetria. Na avaliação, podemos identificar uma discrepância entre maxila e mandíbula ou alterações esqueléticas. A maxila é um exemplo dessa relação. Por estar ligada ao nariz, ao lábio superior e ao sorriso, seu reposicionamento pode repercutir no suporte labial, na exposição dos dentes e da gengiva, na projeção do terço médio da face e até na base nasal. Isso não significa, entretanto, que a cirurgia ortognática deva ser entendida como um procedimento apenas estético. Sua indicação envolve deformidades dentofaciais e discrepâncias esqueléticas que não podem ser corrigidas adequadamente apenas com movimentação dentária. O planejamento considera função, oclusão, estabilidade, vias aéreas, articulação e equilíbrio facial. Outro ponto fundamental é compreender que não existe uma fórmula matemática para prever a aparência final. Pele, tecido adiposo, musculatura, idade, elasticidade e anatomia individual interferem na resposta dos tecidos moles. Duas pessoas submetidas a movimentos ósseos semelhantes podem apresentar resultados diferentes. O planejamento virtual em 3D trouxe mais precisão para estudar o esqueleto, analisar assimetrias e simular movimentos cirúrgicos. Já a previsão dos tecidos moles continua sendo uma estimativa. A simulação é uma ferramenta importante de planejamento e comunicação, mas não uma fotografia exata do futuro. Por isso, expectativa e diagnóstico precisam caminhar juntos. Não devemos prometer simetria perfeita nem um rosto idêntico ao apresentado em uma simulação digital. O objetivo é buscar um resultado funcional, estável e facialmente equilibrado, respeitando a anatomia e a identidade de cada paciente. *Erika Kugler Nóbrega. Cirurgiã-dentista, especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial