<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-end="519" data-start="156">Conheci José Paschoal Vaz nos anos 70, na Cosipa. Eu estava no controle de qualidade; ele, no setor financeiro. Embora seguíssemos rotas diferentes, tínhamos um ponto em comum: a obrigação de cumprir as instruções normativas da siderúrgica. Naquela época, minha missão era urgente: implantar a instrumentação digital para analisar quimicamente o aço efervescente.</p> <p data-end="917" data-start="521">Fui enviado ao Japão para aprender tecnologia e procedimentos operacionais — mas a empresa exigia uma justificativa econômica-financeira para os novos equipamentos. Foi então que Paschoal brilhou. Com ele, calculamos o “Ponto de Equilíbrio”, mostrando que o investimento teria retorno e previsibilidade. Com aqueles números, a decisão de modernizar o controle de qualidade se tornou irreversível.</p> <p data-end="1426" data-start="919">Dessa colaboração nasceu uma amizade. E por décadas a fio, convivemos com outros aposentados da Cosipa em encontros que iam além do tempo: conversas que viravam lembranças, perguntas que não cansavam e curiosidades que seguiam vivas. Nesse círculo, Paschoal tinha um jeito especial de olhar o mundo. Economista, dedicava-se a compreender como as desigualdades sociais atravessam a vida das pessoas — e como a economia, quando guiada por valores, pode produzir caminhos mais justos e resultados mais humanos.</p> <p data-end="1827" data-start="1428">Em 2005, concluiu o doutorado pela USP. A partir daí, seus estudos ganharam ainda mais direção: buscar alternativas ao modelo que exclui, valorizando o cooperativismo como prática de participação e autonomia. Para ele, cooperar não era apenas “organizar trabalho”, era construir bem-estar coletivo, onde a renda não é só consequência e a dignidade não é promessa distante, mas presença no dia a dia.</p> <p data-end="2116" data-start="1829">E, embora Paschoal tenha partido para o plano de Deus, o que deixou permanece. Em Santos, seu legado pode ser visto na implantação de unidades de economia comunitária e colaborativa: iniciativas que seguem vivas, como sementes de solidariedade, lembrando que cooperação também é cuidado.</p> <p data-end="2680" data-start="2118">Apaixonado pela História de Santos, Paschoal sonhava com uma cidade que honrasse o passado para desenhar o futuro. E havia nele, delicadeza em muitas linguagens: dançava com elegância na dança de salão e, no silêncio das leituras, encontrava em Dostoiévski um confidente literário. No fim, Paschoal foi harmonia entre ciência e solidariedade social — um modo de pensar que, com seriedade e esperança, transformava compromisso em realidade. Era parte de uma linhagem de sonhadores: gente que ousa desafiar o tempo, mirar além e almejar a imensidão do azul do céu.</p> <p data-end="2750" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2682">*José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado e mestre ambiental</p>