(Arquivo/AT) O céu, que estava azul de tédio há dez minutos, resolve fechar a cara. Primeiro vem o vento. Ele varre as calçadas, derruba placas de “vende-se”, faz os ambulantes segurarem as lonas. O guarda-chuva da moça elegante vira ao contrário antes mesmo do primeiro pingo. Ela ri. Sempre tem alguém que ri da desgraça pequena. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O primeiro pingo é um teste. Cai na testa do motoboy parado no semáforo. Ele olha pra cima, fecha a viseira, acelera. Atrás dele, a cidade inteira entende o recado. Em segundos, a avenida vira uma coreografia desajeitada. Gente correndo com sacola na cabeça. Gente que desiste e caminha devagar, já entregue. Gente que filma, porque se não postar parece que não viveu. As buzinas ficam mais nervosas, mais inúteis. Na marquise da farmácia, sete pessoas dividem um metro quadrado. Ninguém se conhece, mas todo mundo é íntimo por três minutos. O senhor de boina comenta que, no tempo dele, chuva era chuva. A adolescente concorda sem tirar o olho do celular. Um cachorro magro se enfia entre as pernas, e ninguém tem coragem de enxotar. A banca de jornal fecha as portas. O jornaleiro protege as revistas com plástico. Ao lado, o caldo de cana continua vendendo. Tem gente que enfrenta dilúvio por açúcar. O pastel frita mais alto, como se quisesse competir com o trovão. A chuva de fim de tarde tem poder. Adia reunião, cancela encontro, justifica atraso, inventa saudade. A cidade fica menos cruel quando está todo mundo igualmente vulnerável. Os prédios acendem suas luzes antes da hora. O farol vira borrão, a placa de rua vira aquarela. Motorista abaixa o vidro dois dedos, o suficiente pra trocar desaforo com o ciclista. Os dois se molham, os dois seguem. Empatados. Nenhum perfume francês ganha da terra molhada com óleo de asfalto. Predomina cheiro de infância, de jogo cancelado, de mãe gritando: “tira essa roupa”. A cidade inteira lembra que já foi criança correndo descalça. Dentro dos carros, outro universo. Ar-condicionado embaça o vidro. Dedo desenha coração, nome, palavrão. O rádio do carro toca uma música que ninguém escolheu, mas que combina com o mau tempo. No banco de trás, a criança pergunta se o céu quebrou. O pai sorri e responde que sim. Anoitece e a chuva passa, sem se despedir. O guarda-chuva desvirado volta a ser guarda-chuva. A moça alinhada ajeita o cabelo. O motoboy levanta a viseira. A marquise esvazia e cada um leva um pouco do cheiro do outro na roupa. Chuva de fim de tarde não resolve nada, mas reorganiza. Lava a pressa, adia a obrigação, obriga encontros. Na cidade inteira é só gente ligeiramente molhada, descobrindo que estar viva é se molhar junto. Maurilio Tadeu de Campos. Mestre em Educação, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro das Academias Santista e Vicentina de Letras.