[[legacy_image_282860]] Aquele ponto estreito onde se encontram Guaiaó e Guaibê, nomes sagrados dos povos originários deste lado do paraíso, tem um encanto só dimensionado na hora do ângelus, o crepuscular espetáculo na Ponta da Praia, Ponta Mágica. As despedidas, as boas melancolias, os reencontros, o zênite de todas chegadas e partidas. Como não recordar daquele mesmo píer ou balaustrada sob intensa neblina do filme A Primeira Noite de Tranquilidade, de Valério Zurlini? Nossa Ponta Mágica tem a mesma atmosfera desse clássico com Alain Delon desembarcando solitariamente numa boca de estuário num outro cais distante. Porque sempre a sinto assim, minha Santos, porto mítico como aquele de outro porto do gênio Fellini: uma Rimini de onde extraio toda poesia de levar e trazer do mundo. Inescapável olvidar que aquela faixa rente a duas ilhas foi primeiro olhar, primeira mirada de meus avós, todos vindos de outros portos e ilhas porque meu destino lírico genético seria cantar o mar desterrado noutra margem do Tejo. Entre o Farol do Canal 6 e o contorno das líricas balsas, nunca captamos a mesma sensação, nunca haurimos os mesmos sentimentos: é sempre novidade espreitar o altaneiro forte, sempre mesmo olhar de brilho da infância ao deparar um novo barco. Imaginem esse cenário embalado pela calculada delicadeza do nosso chorinho tão santense? Pois desde 2007, nos tempos ainda do amigo Carlos Pinto na Secult, a Associação dos Artistas promove um raro concerto de câmera tendo como protagonistas o violão, o cavaquinho, o sol poente e a lua sobranceira alumiando o ritmo das vagas. Na meiga Praça Vereador Luiz La Scala, conterrâneos e visitantes têm, há 16 anos ininterruptos, o melhor da lira celeste de Pixinguinha e do samba verdadeiramente de raiz. Atravessando o bulício da preciosa Trabulsi, sob a égide da estátua de Iemanjá, ali no recôndito entre o Aquário e Anchieta apascentando a fera, que oásis urbano. Diante do infinito mar belo, mar selvagem, um acorde imorredouro sustenta a paisagem ao longe. Drapeado de luzes em sinfonia, as curvas da serra coroando a baía rutilante nas promessas da noite. Imaginar que veria prédios da Praia Grande despontando deste outro ângulo da orla? Que êxito sucessivo, sem quebra duma política cultural que reúne todos predicados de nossa terra, nossa gente, nossa tradição de saudável boêmia e dolce vita praiana! Quando lá passo para dar um abraço no grande agitador cultural Jamir Lopes, ouvindo os chorões de prestígio ao som e voz do amigo Rivaldo Ruas, ouço turistas em uníssono: “Que espetáculo natural, que ambiente hospitaleiro, isso é qualidade de vida!” Porque políticas públicas para Cultura não são nenhum bicho de sete cabeças! Dar aos artistas visibilidade, prestigiar pratas da casa, redescobrir as ruas e praças, entender que Turismo começa com nossa Arte, patrimônio e adequação do homem ao seu habitat de interação. Todos os sábados, porque o sábado é o mais brasileiro dos dias, podemos ouvir com espírito despojado alguma canção de Vinícius naquele pedacinho do céu, cantado por Waldir Azevedo. Salve, Chorinho no Aquário!