(Imagem gerada por IA) Sempre que podia, participava de congressos médicos. O Brasileiro de Diabetes não foi exceção, no ano de 1997, no Rio de Janeiro. Esses encontros eram espaços de atualização científica e também de convivência profissional — aquilo que hoje se chama network. A internet ainda engatinhava. Era um ambiente simples, lento e essencialmente textual. Para se conectar, o computador “discava” para o provedor pela linha telefônica, que ficava ocupada enquanto durasse a conexão. Embora meus pais morassem na cidade, preferi ficar em um hotel em Copacabana. Assim teria mais liberdade: poderia sair cedo, quando necessário, ou chegar tarde, caso resolvesse estender o congresso em alguma conversa com colegas, sem interferir na rotina da casa deles. Lembro-me de uma noite em que estava particularmente cansado. Não pretendia sair; no máximo, dar uma volta perto do hotel, comer alguma coisa e voltar para descansar. Logo na portaria, um pouco à esquerda, notei um pequeno bar. Algumas pessoas estavam na calçada, na postura típica de quem observava algo que acontecia lá dentro. Aproximando-me, percebi que havia também câmeras de televisão apontadas para o interior do lugar. Algo estava sendo gravado ali. Jovens estrangeiros tocavam choros tradicionais. Tico-Tico no Fubá, André de Sapato Novo, Flor Amorosa e tantos outros surgiam com brilho e precisão. A equipe de TV era australiana, assim como o violonista de sete cordas; no violino, uma mocinha japonesa, acompanhada por outros jovens brasileiros. Saíram da aula e foram dar uma canja no Bip Bip. Eram alunos do programa de pós-graduação em música da Unirio, onde jovens de todo o mundo vêm estudar choro, bossa nova, samba e muitos outros ritmos brasileiros. Achei aquilo fantástico e desde então percebi o que era ser patriota: esse sentimento de orgulho de nossas riquezas, dentro de uma perspectiva universalista. Depois dessa noite, sempre que estava no Rio, passava pelo Bip Bip, ou simplesmente Bip – um pequeno lugar, de apenas uma porta e cinco mesas, onde não era conveniente conversar em respeito aos músicos, que tocavam de graça. Cada dia da semana era um tipo de música diferente: dia de bossa nova, de partido-alto, chorinho... Também não havia atendentes; cada um que se servisse. No final, apresentava-se a conta para o Alfredinho: tua palavra estava dada. Alfredinho era uma figura tirada de gibi. Depois de três taças de gim, baixinho que só ele, com uma longa e cuidada barba branca, subia na cadeira e, mesmo com sua voz rouca, fazia seu discurso tradicional. “Quem quiser conversar que vá para o bar da frente. Aqui quero respeito aos músicos. O Bip é um dos últimos espaços de boa música carioca”. Assim ele ganhou o selo de Patrimônio Cultural Carioca; e foi ali, num sábado de Carnaval, que seu corpo foi velado. Grande Alfredinho! Marcio Aurelio Soares. Médico.