(Divulgação / Freepik) Duas quintas prósperas. Famílias de bem e de bens. Propriedades de gerações. Ali reinava a harmonia. Tudo começou quando um lado necessitou de um pequeno pedaço de chão da margem contrária. Quebrou-se a paz soberana. A solicitação, simples em aparência, trouxe à tona velhas lembranças e traumas escondidos. O pedido feriu o orgulho dinástico da terra. O campo, local de trabalho e festas, tornou-se fronteira; as crianças já não brincavam juntas, assim como os casamentos entre as famílias foram deslaçados, e até os animais pareciam sentir o peso da discórdia. As conversas amistosas transformaram-se em reuniões tensas e aquele cafezinho, coado na hora, não adoçava mais os encontros. A herdade, sustentáculo das linhagens, dividiu-se entre o posicionamento único de ambas as partes. Não houve advogados, nem papéis, para decidir aquilo que antes se resolvia com um aperto de mão. A aldeia sentiu os reflexos daquele conflito e sofreu as consequências. Sem saber qual caminho escolher, os aldeões dividiam-se criando desavenças e intrigas entre si, muitas vezes sem compreender sequer a origem da disputa. O tempo, em sua longa caminhada, deixou feridas abertas, acordos desfeitos e rancores cansados em toda gente. É curioso... não seriam a conversa e o entendimento formas mais elevadas de lidar com as adversidades? O debate racional, o entendimento mútuo são condições para a justiça; sociedades mais justas surgem quando há diálogo lógico e inclusivo. Então, a guerra é fruto da incompreensão humana? Acredito que pode nascer da falta de consciência emocional e racional. Sentimentos como o ódio, o medo e o preconceito, a incapacidade de ter empatia, a falta de diálogo e os interesses impedem as pessoas de ver alternativas de convivência pacífica. O povoado em frangalhos, destruído de choupanas, de malta e de almas, relegados à fome, miséria e refúgios, murchou. Sabendo como a dor passageira se esvai, a sábia idosa do lugarejo, marcada pelas cicatrizes do tempo, desapegada do eterno e não dona dos dias, mas aprendiz da hora, lembra a todos com voz mansa que a terra não pertence a ninguém e o corpo perece. Para onde vamos não há espaço para coisas, somente aquilo que pensamos, sentimos e somos, e assim, lentamente, o lugar se fez em reflexão. Daqueles que sobraram, aldeotas e senhores, a paz, aos poucos, apresentou-se. Levou-se anos e anos para se restituir. Infelizmente a guerra não se apaga facilmente. Casas destruídas, famílias desfeitas, memórias de fome e medo permanecem na alma coletiva. De Sophia de Mello Breyner Andresen, prêmio Camões 1999: “Fazei Senhor que a paz seja de todos/Dai-nos a paz que nasce da verdade/Dai-nos a paz que nasce da justiça/Dai-nos a paz chamada liberdade/Dai-nos paz que vos pedimos/A paz sem vencedor e sem vencidos”. Jardel Pacheco. Presidente, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais e membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.