(Nirley Sena/AT/Arquivo) Quando entrei no primário da Escola Estadual Dr. Cesário Bastos, tudo parecia superlativo: salas de aula espaçosas com pé-direito alto, janelas enormes e carteiras de madeira, daquelas que tinham um sulco para colocar lápis e canetas, e um recipiente para tinta, concebida em tempos de bico de pena. Minha mãe, que lá estudara na década de 1940, levou-me com um misto de orgulho. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Eu estava deslumbrado com o uniforme: calça curta azul-marinho, camisa branca, ostentando no bolso o número 1 em verde, branco e azul, meias brancas de cano alto e sapatos pretos. No enorme pátio coberto, as professoras das quatro séries e do pré-primário identificavam seus alunos e os enfileiravam ordeiramente. Olhar aquela formação do alto das escadarias era impressionante. O auditório, no primeiro andar, era imponente. No térreo, ficavam as salas de pré-primário e um bem equipado gabinete dentário. O prédio imponente, localizado na Praça Narciso de Andrade, na Vila Mathias, foi projetado no estilo eclético paulista pelo engenheiro e arquiteto Manuel Sabater (na época, não havia separação dessas formações) e inaugurado em 1916. Ficava ao lado da SMTC, uma autarquia municipal responsável pelo transporte público em Santos, mantendo linhas de bonde elétrico, trólebus e ônibus. O Monte Serrat e seus jardins lhe davam um aspecto orgânico, telúrico. Meu pai, que fizera até o ginásio técnico e trabalhava os sete dias da semana como eletricista na SMTC e projecionista de cinema na Cinemas de Santos, encontrou tempo para me alfabetizar aos 5 anos, usando a Cartilha Sodré de meus irmãos mais velhos e jornais. Alguns de meus tios maternos também contribuíram nesse processo, me presenteando com um “brinquedo” diferente: livros. Minha primeira professora, Dona Olga, ao perceber isso, encaminhou-me a uma professora do pré-primário para “auxiliá-la”. Creio que foi minha primeira atividade profissional no âmbito educacional. Deveria ter sido registrada em carteira. Só voltei a essa atividade aos 30 anos, em cursos universitários. O Cesário Bastos deixou de ser escola estadual para ser um campus da USP, na febre do petróleo e gás decorrente das descobertas da Bacia de Santos. Agora volta a ser de responsabilidade da Secretaria Estadual da Educação. Qual será o destino dessa obra emblemática, merecidamente tombada pelo patrimônio histórico, mas com as restrições inerentes? Poderia ser um centro cultural, transferindo as atividades da Cadeia Velha para ele. Quem sabe a iniciativa privada, com incentivos adequados, possa assumir essa proposta. Espero que o bom senso, a criatividade e a inovação norteiem essa decisão! *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras