(Unsplash) Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente o dos homens!” E ele não parou por aí, compartilhando episódios da sua vida conjugal. Veja a audição. Ela se torna preguiçosa, desenvolvendo uma surdez seletiva e protetora. Sou capaz de ouvir o estalo de uma tampinha de cerveja se abrindo a três quarteirões, mas não consigo decifrar a frase: “Precisamos conversar sobre a cor das cortinas”. Deve ser um fenômeno biológico: após cinco anos, a voz da minha esposa alcançou uma frequência que meu cérebro masculino simplesmente ignora — como uma chuva suave. Eu balanço a cabeça como se estivesse escutando, mas minhas sinapses estão, na verdade, mergulhadas no lance de gol que decretou a derrota do meu time. Empolgado, o Personal continuou: “Minha esposa, invariavelmente, afirma que estou perdendo a visão”. Diz que consigo identificar uma jogada de impedimento na TV, mas sou incapaz de enxergar a manteiga que está bem diante do meu nariz na geladeira. “Não está aqui!”, eu grito. Ela caminha até a cozinha, move um pote de iogurte dois centímetros, e a manteiga surge como num truque de mágica do David Copperfield. É feitiçaria doméstica. Como se não bastasse, meu olfato começou a falhar, especialmente após a chegada dos filhos e das fraldas. Minha esposa frequentemente me alertava sobre a presença delas na sala. Quanto ao paladar, tornou-se diplomático. Após anos ouvindo “você não sente o gosto do coentro nessa comida?”, desisti de ter papilas gustativas próprias. Passei a comer jaca achando que era frango e sorria, porque aprendi que o melhor tempero da vida a dois não é o sal, mas a paz. Por fim, o tato. Com o tempo, ele desapareceu nas manhãs de domingo em que meu braço servia de travesseiro para ela. O braço formigava, o sangue parava de circular, a gangrena parecia iminente, mas eu não me mexia. Preferi arriscar perder o braço a despertar a fera. Dizem que o amor é cego, mas ninguém avisa que ele traz surdez, sinusite crônica, perda de apetite e uma dormência generalizada nos braços. No fim das contas, a perda dos sentidos é um mecanismo evolutivo. Se o homem mantivesse todos os sentidos aguçados, não sobreviveria a uma tarde de sábado no shopping ou a uma discussão sobre quem deixou a toalha molhada em cima da cama. O casamento ajusta os sentidos para o modo “sobrevivência irônica”. *Marcos Franco. Administrador de empresas, escritor e membro da Academia Santista de Letras