[[legacy_image_343140]] Carolina é uma amiga rara, rainha das trovas, poeta reconhecida nacionalmente, toda ela cheia de objetivos que sucedem a tantas realizações. É um exemplo de superação por exercer o grande segredo para a longevidade. Carolina tem propósitos, Carolina não cessa de sonhar. Carolina responde-me e-mails com presteza inabitual, não deixa ninguém sem resposta por uma entrevista, sugestão de versos, recomendações literárias. Carolina tem outro fator para uma existência plena e saudável: curiosidade, interesse, atividade! Carolina escritora, pianista, pintora delicada, fez Enfermagem. Carolina minha amiga dirigiu até cinco anos atrás. Dorme pouco e como boa escritora sabe que inspiração, esse outro nome para suor criativo, surge melhor alta noite e madrugada. Carolina participou muito tempo das minhas oficinas de escrita criativa. Não ousaria dizer que foi minha aluna, Carolina de vida e poesia conhece todo necessário mas nunca é necessário e por isso Carolina anota, pesquisa. Com chuva ou vento nas aulas na Pinacoteca de Santos, eis Carolina, a mais aplicada participante da comunhão em nome das letras. Carolina, minha gente, tem material para uns quatro livros a serem revisados e editados, espalhando sensibilidade ao mundo. Mas Carolina faz 100 anos hoje! E daí? Carolina desafia o tempo porque tem muito o que fazer e a motivação dribla qualquer pressa de despedida. Carolina teve filhos, presidiu academias, respeitada por intelectuais da estatura de Guilherme de Almeida, Paulo Bonfim, Mário Quintana e o dr. Ives Gandra. Folclorista, exímia contadora de fábulas, seus livros infantojuvenis deveriam ser adotados pedagogicamente para fomentar o hábito da leitura. Carolina rompeu preconceitos sem alarde, casou, enviuvou e finalmente descobriu seu grande amor maduro no jornalista Cláudio de Cápua. Sem desfraldar bandeiras feministas, só com determinação e sutileza, esteve sempre à frente, ainda que com um toque docemente conservador. Inusitada mesma nossa amizade, eu um poeta comportamental e ideologicamente tão distante de sua sobriedade; é por ser Carolina detentora do sublime respeito pelas diferenças... A mais recente surpresa que me pregou Carolina foi depois de falarmos do fascínio por Florença, ter encontrado por acaso entre guardados um diário de viagem belíssimo pela Itália. Mas o detalhe é que a viagem foi feita no Ano Santo de 1950 e extraviado. Só agora, 75 anos depois, começa ser digitado, vencendo o esmaecido das eras. Para quem é atento, tudo na vida é símbolo. Carolina faz 100 anos no Dia de São José, exatamente no centenário do Colégio São José. Ela mesma, derradeira sobrevivente das primeiras gerações de ouro. Carolina recebe delegações de poetas de toda parte para celebrar aniversário e Santos, que ela cantou em trovas e sonetos, não pode descuidar de todo preito à decana das poetas brasileiras. Neste momento em que A Tribuna faz 130 anos, não posso esquecer que Carolina é sem dúvida sua mais antiga leitora, colaboradora e assinante, hábito herdado do pai nos anos 20. Afinal, quando Carolina nasceu, Vicente de Carvalho ainda vivia e quando Martins Fontes morreu ela já era normalista e o conheceu. Mas Carolina é tão contemporânea, Carolina atenta, Carolina minha amiga que guarda nos olhos a menina.