[[legacy_image_358910]] Você está na beira do mar de novo. E está rindo. Descontroladamente. Imensuravelmente. Intensamente. Os banhistas se perguntam o que há de engraçado. Ao menos, é o que pode imaginar pelos olhares tortos que te direcionam. É hilariamente trágico pensar na quantidade de vezes que esteve no mesmo ponto nos últimos meses, contando seus sentimentos mais ocultos para Iemanjá. Aqueles que você não tem coragem de contar nem para seus melhores amigos. Medo? Bem, essa não é a razão para o seu silêncio. Você, faladeira como é, se vê em xeque. Não sabe como começar a formular as primeiras frases ou estruturar uma combinação de palavras coerente. Quantas vezes se julgou só na última semana pela sua total falta de desenvoltura para se expressar sobre esse tópico, que é seu preferido, embora tão complexo. É, essa pode ser uma explicação. Acho que é isso que pode falar quando for questionada, então vê se decora cada letra que escrevi até aqui. Não é uma mentira, e pode te ajudar a esconder que, no fundo, você não fala porque sabe que quando pronunciar pela primeira vez em voz alta tudo que esconde à sete chaves, se tornará real. E a hipocrisia é sua parceira mais fiel nessa jornada. Ela adora ficar perto de você e te ouvir falar sobre amor, destino e propósito. Muito mais do que com qualquer outro. Você nunca põe em prática o que discursa por ser assustada demais com o que isso pode fazer com seu coração. E isso pode ser divertido para quem é uma contradição. Mas você está cansada. Não quer mais pagar sua língua. Quer ousar. Quer ser corajosa como diz que é. Então continua pedindo conselhos para uma força superior que nunca viu, nunca te respondeu, mas que você acredita cegamente. O vento bate forte, e o mar, antes tão calmo, começa a se agitar. Você se pergunta se é uma resposta para o que busca. Que significado poderia ter, afinal? “Só posso estar enlouquecendo”, é o que você pensa. E de novo, vem a risada. Você desiste de continuar nesse monólogo e decide só apreciar a paisagem. A cidade em que mora é linda. Ainda que não repare isso com a frequência que deveria. Sua mente te trai e, ao invés de divagar sobre o que está na sua frente, te traz lembranças do que você tanto insiste em afastar. Rindo, de novo, fecha os olhos e lembra das vezes que deixa seus dedos passearem suavemente pelo rosto dele. O jeito que você analisa cada detalhe deixa claro que quer guardar cada traço, marca, pinta. Você quer guardar com a maior perfeição que pode para momentos como esse, que deixa o controle de lado e permite que os pensamentos a levem para onde tanto quer estar. Você está sozinha, o movimento diminuiu finalmente, e você pode se permitir lembrar um pouco mais. Ainda resistente, recordar dos olhos castanhos grandes e dos toques discretos – mas tão significativos que recebe. Sabe aquela eletricidade que você sente sempre? A memória é tão viva que agora mesmo é como se tivesse dentro daquele abraço que tanto ama. Você deveria parar de buscar sentido em tudo. Há coisas que nem a espiritualidade pode explicar. Então se prenda nisso: você tem certeza que o que sente é genuíno. Ame. Ame muito. Se Iemanjá pudesse te dizer algo, você sabe que seria isso. Chega de pensar, fantasiar, criar. Sua vida está acontecendo agora. O sorriso que estava no seu rosto foi embora. Você já sabia disso antes. Mas agora, mais do que nunca, sabe que precisa começar a agir. Chega, menina. Vai para casa. Pouco antes de ir, torce secretamente - ou não tanto assim, para que um dia possa liberar toda a intensidade por ter certeza de reciprocidade. Enquanto isso, depois de reflexões sem pé nem cabeça à beira-mar, você está disposta a deixar fluir. E bom, isso significa cometer loucuras de vez em quando. A parte boa disso é que você sabe que você é insana, e se por acaso se machucar no processo, sempre tem para onde correr: aquele ponto conhecido onde você pode conversar com Iemanjá.