(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Há quem diga que a vida é feita de escolhas, mas às vezes ela parece mais um provador de roupas mal iluminado, onde a única peça disponível é justamente aquela: a famosa camisa de onze varas. Não importa se você prefere camiseta básica ou paletó alinhado. Em algum momento o destino empurrará esse “traje” apertado, desconfortável e, sobretudo, inevitável. Portanto, nem sempre poderemos escolher, como pretendemos, a melhor maneira de solucionar uma situação. Existem muitas variantes, diversos entraves que podem dificultar a alternativa mais complexa para tornar possível acertar todas as peças de uma engrenagem “sofisticada” nos seus devidos lugares. A expressão, herdada dos tempos em que vara era medida de alfaiate, transformou-se em metáfora para definir encrenca ou algo que possa nos parecer de impossível resolução. Como o brasileiro é especialista em transformar tragédias em pilhérias, a camisa de onze varas ganhou status de uniforme nacional. Basta observar: na fila do banco, o sujeito que esqueceu o comprovante; no futebol, o goleiro que precisa defender o pênalti aos quarenta e oito minutos do segundo tempo, já na prorrogação; na repartição pública, o funcionário a descobrir que faltava a cópia autenticada em cartório da cópia autenticada anteriormente. Todos, sem exceção, passam a “vestir” a mesma camisa, invisível, mas perceptível e, até, muito incômoda. O curioso é que ninguém pede para usar essa peça. Ela simplesmente aparece como se fosse brinde de má sorte. E quando percebemos, essa “camisa” já está com os botões estourando, na tentativa de disfarçar o sufoco. Alguns se desesperam, outros fazem gracejos, e há quem descubra que, no fundo, a camisa de onze varas é o verdadeiro teste de resistência. Nós até “aprendemos” a desfilar com ela como se fosse um apropriado traje de gala. O ônibus quebra? Camisa de onze varas. O salário não dura até o fim do mês? Camisa de onze varas. O churrasco acaba antes da cerveja? Camisa de onze varas. E, ainda assim, seguimos sorrindo, porque se há algo que nos define é a capacidade de rir de nós mesmos, com aquele semblante sem graça, quase beirando à tristeza. Resolver essas situações, quase bizarras? Muitos decidem que o melhor é passar por cima, deixar como está ou buscar opções paliativas como remédios para dor de cabeça que aliviam a dor e o mal estar que, certamente, podem voltar, com o “dobro da força”, para variar. No fim das contas, talvez a camisa de onze varas seja menos castigo e mais convite: um lembrete de que a vida não cabe em medidas exatas, que sempre haverá um botão prestes a saltar, uma costura mal feita, um tecido que pinica. E que, apesar disso, seguimos vestindo, ajeitando, improvisando. Afinal, se não fosse por ela, o que de engraçado haveria na crônica do cotidiano? *Maurilio Tadeu de Campos. Mestre em Educação, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro das Academias Santista e Vicentina de Letras