O Partido dos Trabalhadores ficou em 9º lugar no País, com nítida vitória dos partidos de direita e centro-direita, e abaixo do PSB (que elegeu 308 prefeitos) e do PSDB (273 prefeitos) ( Roberto Jayme/TSE ) As eleições municipais deste ano trouxeram más notícias para os partidos à esquerda no Brasil. Seu desempenho foi decepcionante: o PT, a maior sigla, elegeu 252 prefeitos, mais do que os 180 que alcançou em 2020, mas muito abaixo do número atingido em 2012 (637 prefeitos eleitos). O Partido dos Trabalhadores ficou em 9º lugar no País, com nítida vitória dos partidos de direita e centro-direita, e abaixo do PSB (que elegeu 308 prefeitos) e do PSDB (273 prefeitos). A eleição de Donald Trump nos EUA foi outra marca importante na trajetória rumo ao populismo conservador de direita em escala mundial. São muitas as causas e explicações para o fenômeno atual, a agitar análises e estudos, mas um ponto é indiscutível: a esquerda perdeu espaço no mundo e no Brasil, e enfrenta sérias dificuldades para conquistar eleitores e apoio. A esta altura, cabe a pergunta sobre o que teria acontecido: mudou o mundo ou mudaram as pessoas? A resposta é provavelmente afirmativa para ambos. Há pouco mais de dez anos a esquerda desfrutava de respeito e simpatia, mesmo entre aqueles que não votavam nela. Ninguém se dizia de direita no Brasil: o epíteto era negativo e nocivo, associado ao pior que havia ocorrido no País durante a ditadura militar. Isso mudou, entretanto. A direita não se tornou majoritária, certamente, mas hoje ocupa papel importante, embora o chamado “centrão”, amorfo e sem ideologia, prevaleça no Congresso e nos municípios. Não cabe aqui discutir as razões pelas quais a direita avançou e a esquerda recuou: isso fica para outro artigo. Atrevo-me aqui a sugerir alguns caminhos para os setores progressistas, na tentativa de recuperar espaços. No plano mais geral, é preciso entender o que as pessoas pensam e desejam. Como demonstrou a vitória de Trump nos EUA, não há hegemonia da esquerda em grupos e setores: há, sim, o pobre de direita. Os trabalhadores querem emprego, ganhando mais, preocupam-se muito com a segurança individual e horrorizam-se com a corrupção. A partir dessa constatação, é preciso aproximar-se da realidade dos indivíduos, de suas angústias e problemas, e dos meios utilizados para informação (mídias e redes sociais). A esquerda não deve, é evidente, abrir mão de seus princípios fundamentais: o predomínio do coletivo sobre o individual, a promoção da justiça social, a defesa do universalismo e a certeza do progresso humano. Mas deve abrir-se para frentes amplas, especialmente com o centro liberal, hoje capturado pela direita. Não pode insistir em teses mais extremadas, que assustam e afastam, nem colocar como centro de suas ações as pautas identitárias. As minorias merecem respeito e atenção, mas em perspectiva geral, e não particular. Moderação? Sim, sem dúvida. Mas firmeza nas ações, com tolerância e capacidade para ouvir e dialogar, jamais impondo. O governo precisa aproximar-se da nação, entendendo o que representa a maioria do Congresso. E uma derradeira indicação: o caminho passa pela organização e atividade local. As pessoas vivem nos bairros e nos municípios, e oferecer soluções e respostas (e não apenas críticas virulentas) é necessário para aproximar-se do eleitor médio. A esquerda precisa, enfim, voltar a ser alegre, divertida, entusiasmada e feliz, confiante que é possível mudar o mundo, certamente para melhor. *Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do IPAT – Instituto de Pesquisas A Tribuna