(Reprodução/Pixabay) O bullying não termina quando o sinal da escola toca. Suas consequências ultrapassam os muros escolares e podem permanecer na vida de crianças e adolescentes por muito tempo, deixando cicatrizes emocionais que nem sempre são percebidas pelos adultos. Humilhações, ameaças, exclusão, apelidos ofensivos e agressões repetidas podem comprometer a autoestima, o sentimento de pertencimento e a segurança emocional de quem sofre essa violência. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE, ajudam a compreender a importância de observar a relação entre situações de violência, sofrimento emocional e comportamentos de risco na adolescência. Quando um jovem se sente constantemente rejeitado, ridicularizado ou isolado, pode desenvolver dificuldades para lidar com sentimentos como tristeza, raiva, medo, vergonha e solidão. É nesse cenário que surge um elo muitas vezes invisível entre o bullying e o uso de álcool e outras drogas. Para alguns adolescentes, a substância pode ser percebida como uma forma de escapar temporariamente da dor, diminuir a ansiedade, facilitar a integração em determinados grupos ou simplesmente esquecer experiências negativas. O problema é que esse alívio é passageiro e pode abrir caminho para novos prejuízos emocionais, familiares, sociais e escolares. Por isso, combater o bullying também significa atuar na prevenção ao uso de drogas. Não basta dizer ao adolescente que ele não deve consumir determinadas substâncias. É necessário compreender quais dores, conflitos e necessidades podem estar por trás de comportamentos de risco. Uma estratégia possível é a implementação de Círculos de Fortalecimento Emocional nas escolas e comunidades. Esses espaços podem favorecer a escuta ativa, o diálogo, a identificação das emoções, o desenvolvimento da empatia e a construção de estratégias mais saudáveis para enfrentar frustrações, conflitos e rejeições. A prevenção precisa envolver escola, família e comunidade. Professores devem estar preparados para reconhecer mudanças de comportamento; as famílias precisam manter canais de diálogo; e os próprios estudantes devem aprender que pedir ajuda não representa fraqueza. Da mesma forma, quem presencia uma agressão precisa compreender que o silêncio também pode contribuir para a continuidade da violência. Quando oferecemos ao jovem acolhimento, pertencimento e ferramentas para enfrentar seus conflitos, reduzimos a necessidade de buscar refúgios prejudiciais. Prevenir o bullying é, portanto, também uma estratégia de promoção da saúde e de prevenção ao uso de drogas. Precisamos substituir o ciclo violência, isolamento e fuga por outro caminho: acolhimento, fortalecimento emocional e proteção. Nenhuma criança ou adolescente deveria precisar anestesiar uma dor que poderia ter sido ouvida, acolhida e cuidada. *Dejane Mascarenhas. Professora universitária, neuropsicóloga, escritora da série de oito livros “Bullying Além” e fundadora do programa Bullying Não Tem Vez