(Reprodução) Não se trata mais de um grupo aspirante a voz global. O Brics já é o eco profundo de um mundo multipolar em construção. Com mais de 40% da população mundial e 37% do PIB global, o bloco – que começou discreto com Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – agora abriga novos atores, como Irã, Egito, Emirados Árabes, Etiópia e, possivelmente, Arábia Saudita. Um gigante que mistura força econômica, poder político e vastidão geográfica, em um recado direto às potências ocidentais: a supremacia de ontem não é mais o único roteiro disponível. Os números impressionam. Representando 26% do comércio global, 44% das reservas de petróleo, 53% das de gás natural e a maioria absoluta das terras raras, o Brics é uma potência material que ninguém ignora. Adicione a isso a liderança em recursos hídricos – Brasil e Rússia detêm as maiores reservas de água doce do planeta – e o peso nuclear de China, Índia e Rússia, e o cenário de influência global do bloco torna-se incontestável. Aqui está a provocação: quem comanda a economia mundial daqui para frente? A Paridade de Poder de Compra (PPC), critério que mede o real poder econômico, já coloca o bloco em vantagem sobre o G7. Mais que números, isso reflete um deslocamento da hegemonia econômica para o Hemisfério Sul – uma dinâmica que Washington, Londres e seus aliados terão cada vez mais dificuldade em controlar. Mas antes de o coroar como a nova força hegemônica, é preciso olhar para dentro. A casa está longe de ser harmoniosa. Rússia e China, com seus governos centralizadores, têm agendas que muitas vezes colidem com a democracia robusta da Índia ou a política externa volátil do Brasil. Sem falar nas disputas comerciais sino-indianas, que frequentemente criam atritos. E aí está o problema estrutural: o Brics ainda não é um bloco formal. Não há um secretariado, um sistema de governança ou sequer um portal único que unifique ações e metas. É, na prática, uma aliança de interesses momentâneos – e isso mina o poder de articulação do grupo em crises globais. Apesar das diferenças, o Brics compartilha um desejo comum: mudar as regras do jogo. O sistema de governança global atual – leia-se ONU, FMI e Banco Mundial – ainda reflete o mundo do pós-Segunda Guerra, com os países do Norte ditando as cartas. Gostemos ou não, o bloco é o espelho do mundo em transformação. Ele não é apenas um grupo, mas um símbolo da ascensão do Sul Global. Se o Ocidente ainda acredita que pode governar o mundo sozinho, o Brics veio lembrar que há outros 40% da população global e 37% da economia prontos para ocupar seu lugar à mesa. E, dessa vez, eles não pedem licença – eles chegam para sentar. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo