( Tânia Rego/Agência Brasil ) O Brasil, com seus mais de 210 milhões de habitantes, sempre foi apresentado como aquele gigante irresistível aos olhos de empresas e investidores estrangeiros. E não é para menos. Mesmo que apenas cerca de 50% da população esteja hoje nas classes A, B e C, consideradas o coração do consumo, estamos falando de aproximadamente 105 milhões de pessoas. Um mercado que, sozinho, supera a população de muitos países desenvolvidos. Diante disso, o anúncio de que o País recebeu cerca de US\$ 77 bilhões em investimentos em 2025 soa como motivo de comemoração. Manchetes otimistas, discursos confiantes, clima de vitória. Mas a pergunta que insiste em aparecer é simples: será? Enquanto parte dos investidores ainda aposta no potencial brasileiro, outra parcela começa a fazer as malas. Empresas tradicionais e de peso decidiram deslocar operações para fora do país. A Lupo, símbolo da indústria têxtil nacional, optou por transferir parte da produção para o Paraguai. O movimento não foi isolado. Gigantes como a Bosch, a Kidy, a Riachuelo, a Bracol e a Fujikura, entre outras, seguiram caminho semelhante. Os setores têxtil, de varejo e de autopeças lideram essa migração silenciosa, atraídos por custos operacionais que podem ser até 40% menores fora do Brasil. Em um ambiente de margens apertadas e competitividade global acirrada, a matemática costuma falar mais alto que o discurso. É por isso que olhar apenas para os US\$ 77 bilhões que entram não basta. É preciso também encarar os números que saem. Estima-se que cerca de US\$ 82 bilhões tenham deixado o país no mesmo período. A conta completa raramente ganha o mesmo destaque, especialmente em ano eleitoral, quando a tentação de mostrar apenas o copo meio cheio se torna irresistível. Mais preocupante do que os números é a indiferença. Uma parcela expressiva da população sequer percebe esse movimento de marcha à ré. Falta informação, falta interesse ou talvez sobre tempo demais para as tendências do momento e as últimas polêmicas das redes sociais. O debate sobre competitividade, produtividade e ambiente de negócios dificilmente viraliza. O Brasil continua sendo um país de potencial imenso. A questão é saber se conseguirá transformar potencial em permanência, confiança em previsibilidade e números de ocasião em crescimento sustentável. Porque mercado consumidor é importante. Mas confiança, essa sim, faz com que o investimento decida ficar ou ir embora. *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor