Recheada de arroz, a boneca de pano me acompanhou até os 12 anos. A infância invadiu a pré-adolescência. Acreditei em Papai Noel até essa idade. Nenhum presente, porém, substituiu a boneca de pano, o dia inteiro comigo, até a hora de dormir. Ao despertar, continuava agarradinha, parecendo uma prolongação do meu corpo. O tempo passou... Quando a filha nasceu, fiz sua boneca de pano. Corpo de algodão, tranças de lã e boca vermelha. A avó teceu o chapéu de crochê. A neta apegou-se a Maricota, que dentro da mala escolar, tinha um lugar garantido... Anos depois, numa feira artesanal, escolheu uma boneca de pano negra, boca rubra e roupa estampada. Adulta, a filha me trouxe uma de barro pintado de negro. Entre cores, gestos e história, ela representa a força e a beleza da mulher brasileira. Cada traço feito à mão carrega tradição, arte e sentimento, símbolo vivo da cultura popular, que transformou um cantinho da casa em poesia. As bonecas de pano e de barro nesse lugar mágico ganham vida e sussurram histórias dos anos que precederam a Lei Áurea. Narrativas das escravas e da parteira Marie Josephine Mathilde Durocher. Nascida em Paris em 1808, chegou ao Brasil em 1816, junto com a mãe, que se estabeleceu no Rio de Janeiro. Quando Marie decidiu ingressar no curso de parteiras da Faculdade de Medicina, a mãe já havia falecido e o comerciante Pedro David, com quem vivia e com o qual tinha dois filhos, fora assassinado. Pela lei de 3 de outubro de 1832, que criou as primeiras faculdades de Medicina, as mulheres podiam participar especificamente do curso de partos, mas a pressão de uma sociedade machista era grande demais, impedindo quase todas de se matricular. Durocher foi a única aluna matriculada na primeira turma, em 1833. Numa época em que a assistência ao parto era exercida por curiosas, aparadeiras e parteiras, empíricas, Durocher destacou-se por sua vasta atuação e conhecimento. Naturalizou-se brasileira e resolveu adotar uma vestimenta peculiar: usava preto, com casaco masculino, gravata, cartola e uma saia. Foi descrita por um jurista contemporâneo como um “tipo bizarro, uma criatura insexuada”. Sua importância histórica transcende muito essa representação caricata. Madame Durocher gozou de grande prestígio na profissão. Teve a mais vasta clínica obstétrica de seu tempo. Acredita-se que tenha assistido a mais de 5 mil partos. Assistiu, em 1847, à imperatriz Tereza Cristina no parto da princesa Leopoldina, terceira filha de dom Pedro 2º. Durocher não tinha uma clínica elitizada, atendia indistintamente gestantes de todas as classes. Quantas escravas atendeu. A todas, palavras de coragem. Ama. Ama novamente quem és. Ainda que sejas o mesmo. Ainda que sejas outro. Tua história só interessa a ti mesmo. Publicou vários artigos relacionados à obstetrícia. Foi aceita em 1871 e efetivada em 1889 como membro da Academia Imperial de Medicina, apesar de não ser médica. Foi a primeira mulher a fazer parte da Academia. Durocher morreu no esquecimento, em 1893. Sua história prova que o preconceito existia no século 19. No cantinho de casa, a boneca negra de barro sussurra: hoje, ainda há escravidão, fora das senzalas! *Regina Alonso. Escritora e membro das academias Santista de Letras; Vicentina de Letras, Artes e Ofícios; Letras Artes e Ofícios de Praia Grande