(Divulgação) O ator Roberto Benigni, vencedor de três Oscars por A Vida é Bela, pegou o líder comunista Enrico Berlinguer no colo durante um festival da juventude italiana em 1983. A cena correu o mundo. Não era apenas um comediante carregando um político, era como se a leveza abraçasse a seriedade. Tempos depois, Benigni definiria Berlinguer como “o poeta do nosso tempo”, uma expressão que ajuda a compreender o raro lirismo que sua trajetória imprimiu à política. No dia 11 de junho completam-se 42 anos da morte de Berlinguer. E talvez sua maior lição seja justamente a mais difícil de praticar em tempos de gritos, algoritmos e certezas absolutas: manter convicções firmes sem perder a capacidade de dialogar. Berlinguer não nasceu em um mundo amigável às suas ideias. Consolidou sua formação política sob a sombra do fascismo italiano, o mesmo regime que encarcerou Antonio Gramsci até a morte. Poderia ter aprendido apenas o ressentimento. Aprendeu algo mais complexo: a necessidade de construir maiorias heterogêneas sem renunciar aos princípios. Por isso dialogava com operários e intelectuais, com sindicalistas e empresários, com ateus e cristãos. Compreendia que a democracia exige pontes. Não pontes para a rendição das ideias, mas para a convivência entre diferentes. Há uma diferença importante: dialogar não significa aceitar tudo. O chamado paradoxo da tolerância nos lembra que uma sociedade aberta não pode ser tolerante com aqueles que desejam destruir a própria liberdade. Berlinguer sabia disso. Defendia a democracia porque a considerava um valor universal, não um instrumento descartável. Berlinguer talvez tenha despertado respeito muito além das fronteiras de seu partido. As “mamas” italianas viam nele um filho honesto. Os operários enxergavam um dos seus. Muitos cristãos encontravam alguém capaz de conversar sem preconceito. Até adversários reconheciam sua integridade. Num tempo em que a política frequentemente se reduz ao espetáculo da agressão, vale recordar aquela imagem de Benigni carregando Berlinguer. Não como uma curiosidade histórica, mas como uma metáfora. A política precisa de firmeza, de coragem e de lado. Mas também precisa de humanidade. Berlinguer nos lembra que é possível sustentar convicções profundas sem transformar o outro em inimigo absoluto. Talvez seja isso o verdadeiro lirismo da política: a capacidade de defender aquilo em que acreditamos sem abandonar a delicada arte de conversar com o mundo. *Thiago Andrade. Gestor público