[[legacy_image_256951]] Em 2004, participei de um concurso literário, cujo tema era Por que poesia em tempos de indigência. Ao final de meu texto, escrevi: “por que, então, poesia em tempos de indigência? Porque até as preces, de aflitos, esperançosos e agradecidos, são feitas em verso! Porque as epopeias, que falam da superação de adversidades, são descritas em verso! Porque mesmo o rigor de um dogma e a arrogância dos poderosos não resistem e cedem passagem à ousadia de uma licença poética! Porque a razão nos guia no solo firme, mas é a poesia que nos faz voar e ver além da escuridão ou da linha do horizonte!”. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Poetas, bardos e menestréis tiveram esse papel ao longo da história. Na Idade Média, afora o “bobo da corte”, os menestréis eram dos poucos que tinham o direito de ironizar reis e nobres. Com o tempo, essa licença poética e liberdade de expressão passaram a ser perseguidas e caladas. Uma definição de menestrel é: “poeta ou músico que divulga, cantando ou declamando, poemas ou músicas próprios ou alheios; trovador, cantor”. Juca Chaves assumiu esse papel e passou a ser conhecido como o Menestrel Maldito, por seu sarcasmo e malícia sem freios. Juca - com Zé Vasconcellos e Chico Anysio - foi precursor de apresentações solo, hoje conhecidas como stand up, e sabia muito bem onde enfiava seu nariz, bem grande, como ele mesmo reconheceu: “Nariz, ai, meu nariz! Como falam mal deste nasal que é tão normal. Ouço diariamente muita gente infeliz dizer que ele é maior do que a miséria do País”. Tudo o que produzia tinha sentido direto, arrasador, ou segundas intenções, indecorosas para os padrões da época. Seu humor, apesar de cáustico, tinha um certo refinamento, diferentemente de Ary Toledo e do saudoso Costinha, esses mais escrachados e também vítimas do politicamente correto. Por conta dessa irreverência, foi frequentemente censurado, antes e depois do governo militar: “Brasil já vai à guerra, comprou porta-aviões!”, quando o Brasil comprou o navio-aeródromo Minas Gerais; “Cai! Cai! Tudo o que se constrói, da Tampa da Gameleira à Ponte Rio-Niterói! Cai até o elevado do Dr. Paulo Frontin! Cai o teto do mercado e a moral de quem não tem... Só o biquíni da Jacqueline caiu porque ela quis”. Até em Portugal ele mexeu em um vespeiro ao falar de dois burrinhos, Sal e Azar, exortando-os a caminhar: “Anda Sal! Anda Azar! Anda Salazar”, ironizando o ditador português Mas também tinha seu viés esportivo: “Pratique esporte dentro do chuveiro. Use o banheiro para ficar mais forte. Levante halteres com seu cotonete, mas, muito cuidado para apanhar o sabonete!” Ele era apaixonado por sua arte, o que só foi superado por seu amor por Yara, musa que inspirou uma das músicas mais lindas que já ouvi: A Cúmplice. Que letra maravilhosa! Alguns dirão que é machista, mas, em verdade, é uma reverência absoluta, uma submissão completa ao universo feminino: “No seu falar provoque o silenciar de todos! E seu silêncio obrigue a me fazer sonhar...”. Juquinha nos deixou, do alto de seus 84 anos, deixando o Brasil cada vez mais sem graça. Ele, como outros de sua geração, foram excluídos da mídia convencional, mas estarão na memória dos que entendem que deve haver poesia e humor mesmo em tempos de indigência, de pasteurização de ideias, de patrulhamento cultural. Adeus, Bendito Menestrel!