(Imagem ilustrativa/Pixabay) A tia coloca a semente na palma da minha mão. Ah, infância, em que o puro entendimento se dá no fluir do tempo e das estações. Até o vento te leva, delicado grão de mostarda! Podes ser cultivado em qualquer época do ano, especialmente entre março e abril, quando os dias são mais curtos. Sob a influência fotoperiódica, floresces com vigor no verão, quando os dias se alongam e tens mais tempo para se desenvolver, produzindo um volume maior de flores. Ah, amarelo do velho quintal do sobrado onde nasci, o tempo não para. És o motivo desta memória afetiva. Junto à tia, os grãos delicadamente espalhados na terra do quintal. Desde a primeira rega, a cantoria feminina acorda a vizinhança. E descansas sobre a terra, pequenino grão adormecido... Brotas em suave haste, alguma folha (ainda trêmula), ao cuidado dos que não te pisam. E te estendes para cima… Queres tocar o azul das alturas? Na inocência, minha e dos seis irmãos, o sonho era a realidade. Ao sol do verão, o gramado e os canteiros cobertos de amarelo. Cuidávamos, da alvorada ao anoitecer para que nosso cão Bolero não pisoteasse as flores. Ele parecia entender e se espichava diante da porta enorme do porão. A semeadura em linhas de plantio, a tia ensinou, feitas no campo pelas mãos operárias. Esquecido, te entregas aos dias mutantes, ora calor, ora frio e até ventania. O tempo inexorável surpreende. E brotas. Ganhas altura. Novas hastes avolumam-se. A copa verdejante atravessa o canto dos pássaros abrigados. És acolhida natural, enquanto mãos rudes colhem delicadamente teu fruto e folhas verdes em feixes... A alegria do teu frutificar não acontece apenas na hora da colheita. Desde a semeadura nos imensos campos, quando o homem suja as mãos de terra e se torna íntimo de ti, pequenino grão, o júbilo começa. Nós, que amamos e respeitamos a natureza, não tememos nada. Nós, que (re)criamos o quintal num vaso... Nós, incansáveis camponeses e andarilhos sabemos que somos muito mais que este chão, terra abençoada. Se alguém a amaldiçoou foram os responsáveis pelas queimadas, pelo descuido dos canteiros, pelo abandono do trabalhador à própria sorte. O homem diante da natureza olha para si mesmo e percebe que é pequeno. Experimentando a humildade, quer ver nitidamente o que és, diminuto grão. Usa uma lente, mas é na parábola, história breve, cotidiana e profunda, que entende a comparação do reino de Deus a ti! Os primeiros brotos saem entre cinco e dez dias após o cultivo. Cresces, e te tornas a maior das plantas, com ramos grandes e intensa floração. A fé também começa pequena, mas pode crescer e se tornar algo poderoso e influente, como tu, agora vestido de folhas largas, bordas suaves, sem os tradicionais recortes de outras variedades. Tuas folhas verdes, vibrantes, têm uma textura macia. Na hora da refeição, a salada fresca no centro da mesa. Na boca permeada de rugas, mastigo com prazer teus frutos. Sinto ainda o sabor de outrora, quando tínhamos quintal e canteiros de terra, semeando a alegria de viver tecendo hortas caseiras, rudimentares e afetivas. Ah, pequenino, nesta primavera, quanta saudade de ti!