[[legacy_image_341907]] Cândida Raposo é uma senhora que nasceu da consciência sagaz de Clarice Lispector. Na maca do ginecologista, aos oitenta e tantos, ela se questiona com inconformismo: “Quando é que passa? Quando é que passa - a coisa?”. O que cerca seu questionamento é o desejo. Um apetite insaciável de coisa. Fome de fantasia. Volúpia. Cândida é uma mulher, narrada por Clarice, vestida de vergonha de se sentir no conto Ruídos de Passos. E eu adoraria que Bella Baxter, do filme Pobres Criaturas, atravessasse a vergonha de Dona Cândida com seu fogo de viver e se explorar. A personagem de Emma Stone na trama do diretor Yorgos Lanthimos desafia a nós mulheres a lembrarmos o tamanho da potência sexual que nos envolve. A aprisionada Bella Baxter não teme em momento algum retirar suas metafóricas algemas para descobrir uma esteira de infinitas belezas em descobrir a si mesma. Quando Bella de Emma e Yorgos alcança com fascínio aquilo que envergonha Dona Cândida de Clarice - a personagem é imediatamente atravessada pelo “não”. O seu desejo de sentir é castrado pela moralidade daquilo que chamam de sociedade civilizada. A mulher, portanto, no centro de qualquer debate sobre sexo, precisa ser polida e regulada. Penso que Bella se orgulha de ser mulher. Não se apequena diante dessas etiquetas patriarcais que nos silenciam há gerações. Mas para que ela pudesse nascer da consciência sagaz do diretor grego e do brilhantismo de Emma Stone, outras mulheres desempenharam papéis determinantes para nós na vida fora das telas. É uma lista infinita delas que movimentaram a sociedade civilizada em campos minados e proibidos: na política, na carreira, na maternidade, na ciência e, claro, no sexo. E quando Marias, Ritas, Annes, Simones e tantas outras, explodem esses campos, deixam então o caminho livre para Bella Baxter nascer na tela dos cinemas para nos lembrar que não há lugar para o “não” vindo do outro lado para nos polir. O limite quem impõe somos nós. Mulheres. Aprendendo a desfrutar a nossa capacidade de buscar soluções e bancar decisões, como ensina com maestria a personagem de Sandra Hüller em Anatomia de uma queda - um dos filmes mais fantásticos e profundos a que já assisti e que irá disputar a estatueta do Oscar na mesma lista que Pobres Criaturas. E penso que assistindo à Bella Baxter, assim como lendo Clarice e me espelhando nas centenas de mulheres que desafiam até hoje os campos minados, lembro que bebi da melhor fonte de sabedoria feminina dentro da minha própria casa. E foi com a minha mãe. Uma iluminada psicóloga, com o fogo de viver de Bella, que não se veste da vergonha de volúpia de Dona Cândida aos sessenta e tantos e que me ensinou a sustentar minhas escolhas e não me apequenar jamais.