Não há dia em que não ouça um vvvrrraaammm vindo de uma makita, máquina trituradora de dedos de trabalhadores. Vem de vizinhos, de rua de trás, da cidade. Ainda não ouvi o vvvrrrzzzzzzz da serra elétrica, e peço a Deus, diariamente, que não o ouça, pois em frente ao meu prédio tem uma árvore linda, frondosa, “doadora” de sombra e frescores, longe da fiação elétrica. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Sempre que estou no Rio de Janeiro passo por Copacabana, esse bairro cheio de mistérios, encantamentos, verdades e mentiras — síntese de uma cidade com ruas empilhadas de gente bonita indo e vindo da praia e senhoras e senhores caminhando no calçadão de mosaicos famosos, por entre inúmeras amendoeiras que acalentam seus idosos como o berço a seus bebês. Uma dessas amendoeiras chegava muito próxima de nossas janelas no nono andar. Com suas folhas e galhos vinham os pássaros a nos encantar. Uma oração à natureza. Não faz muito tempo voltei à cidade e reparei que “nossa” árvore tinha sido podada, e com “gosto” — com vontade, como aquele gozo de quem espoca uma espinha no espelho. Olhei para cima desgostoso e me perguntei por que teriam feito aquilo. Seria algum contrato com a Prefeitura baseado em produção? Ou haveria lucro na trituração dos troncos e galhos? De volta à base. Estou na rua dos restaurantes, a mais movimentada da cidade: muita alegria, bastante movimento, música – eventualmente, alguma de gosto duvidoso, mas, ainda assim um lugar alegre, que é tudo que precisamos na vida. Costumo dizer que vivemos em plena festa junina com suas gambiarras de luzes fixadas de poste a poste. Bem próximo, cruza uma avenida de grande circulação de veículos. Não há um dia que não ouça um uíuíuí-óóóó-uíuíuí-óóóó dos carros de bombeiros. Lá se vão nossos heróis, penso. Ouço os barulhos da cidade, que fazem parte de mim. Mas sinto falta de gente cantando e assobiando no meio da rua, de cumprimentar os desconhecidos que atravessam nosso caminho. Sinto falta de menos fios suspensos nos postes, menos podas, mais céu. De uma vida mais devagar. Mas tenho a impressão, ligeira impressão, que os prédios estão subindo em demasia e se esvaziando, que apesar de suas sombras artificiais, a temperatura esteja subindo e se tornando cada vez mais insuportável. Ou será essa uma reflexão de um jovem idoso?