(Reprodução/Warner Bros. Pictures) O filme O Morro dos Ventos Uivantes, adaptado e dirigido por Emerald Fennell a partir do romance de Emily Brontë realça o diálogo entre a obra da escritora inglesa e a do francês Honoré de Balzac. Para entender possíveis razões que poderiam ter feito Brontë se encantar por Balzac, precisamos voltar à juventude do autor francês. Antes de começar a assinar seus textos com o próprio nome, Balzac usava pseudônimos. Um deles, sugestivamente bem inglês: Lord R’hoone, com o qual ele assinou suas primeiras narrativas. É importante destacar que a literatura gótica, iniciada no século 18e que depois se tornaria o estilo preferido de Brontë, também foi praticada por Balzac no início de sua carreira. Scott Sprenger, nos lembra que os primeiros romances balzaquianos “eram inspirados na literatura gótica inglesa. Balzac o disse. Os críticos constataram”. Os ecos da imaginação balzaquiana em O Morro dos Ventos Uivantes começam pela construção da personagem Catherine Earnshaw. Seu drama lembra o vivido por Eugénie Grandet, protagonista do romance homônimo. Eugénie Grandet foi publicado, pela primeira vez, em 1833, quando Emily Brontë estava com 15 anos. Nele, Balzac retrata a história de um amor que deveria ser apenas fraternal, mas que evolui para uma paixão. A jovem provinciana Eugénie Grandet se apaixona pelo primo Charles Grandet que, desempregado, vem passar uma temporada na casa dos tios no interior de França. Charles e Eugénie vivem um romance proibido, contra a vontade do pai de Eugénie. Nesse pequeno recorte iluminam-se ressonâncias entre as duas obras: em O Morro dos Ventos Uivantes, Catherine se apaixona por Heathcliff, rapaz adotado pela sua família e criado como se fosse seu irmão bastardo. Ela também desafia o desejo do pai e enfrenta as barreiras da sociedade para viver sua paixão. Em Eugénie Grandet, Charles deixa a casa dos tios e faz uma longa viagem em busca de negócios, retornando, anos depois, como um homem rico. Trama semelhante se dá em O Morro dos Ventos Uivantes, já que Heathcliff também deixa a propriedade rural na qual foi criado e regressa transformado e bem-sucedido. Outra alusão a Balzac ocorre no momento em que Heathcliff sente o aroma do perfume usado por Catherine e reprova o gosto da amada; ela responde: “É o lírio do vale!”. Sabemos que O Lírio do Vale é o título de um romance de Balzac publicado em 1836, que narra o amor platônico e trágico entre Félix de Vandenesse e a condessa, casada, Henriette de Mortsauf. A história também se passa numa região provinciana na qual o campo — com seus morros, rios, ventos —, assume papel central. Somente uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema poderia apontar se a leitura dos romances de Balzac teria influenciado ou não a escritura de O Morro dos Ventos Uivantes. Certo mesmo é a presença da Inglaterra na obra de Honoré de Balzac que foi, e ainda é, muito bem realçada pela crítica. *Lucius de Mello. Doutor em Letras, autor da tese “A Bíblia segundo Balzac: Deus, o Diabo e os heróis bíblicos em A Comédia Humana”, jornalista, escritor e finalista do Prêmio Jabuti em 2003