Imagem Ilustrativa (Pixabay) Precisei viver oito décadas para ter coragem de olhar de frente e para dentro de mim mesma. Descobri que nem tudo estava sob meu controle. O fardo da autossuficiência é pesado. E com a idade avançada é mais difícil carregá-lo. Num piscar de olhos, após a reclusão forçada durante a pandemia, exorbitamos nos afazeres. Pisamos fundo no acelerador, esquecidos de que, no jogo da amarelinha, há inferno e céu. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Depende do caminho. Mas... entregues aos apelos prementes da sociedade em ebulição, a ansiedade toma conta de nós, num verdadeiro redemoinho. Cobrados pelo desempenho permanente, somos atropelados pela ânsia de fazer muitas coisas ao mesmo tempo e pela expectativa de que tudo saia como a gente quer. É preciso reconhecer e validar nossos sentimentos, pois as emoções, mesmo as mais desconfortáveis, são mensagens valiosas. Isso só me foi possível com a ajuda de um psicólogo. E em cada sessão, um ‘novo mundo’ descortinou-se, gradativamente, no ‘velho cotidiano’. A ansiedade não é uma inimiga. É, apenas, a parte desorientada de cada um, pedindo para reavaliar o modo de viver. Analisar o contexto, as relações entre o tempo e o espaço em que vivemos para compreender as origens da ansiedade. Porém, não é tão simples assim. Não acontece num passe de mágica. É preciso coragem para mergulhar em si mesmo e buscar conhecer sua própria história. Um profissional pode ajudar. No entanto, nem todos têm condições de bancar os custos. A maioria, após pagar as despesas de aluguel ou a prestação da casa própria, o gasto com alimentação e mensalidades escolares fica no ‘vazio existencial’, sentimento de falta de propósito e significado na vida, que pode causar desconexão e falta de direção. É uma condição que pode surgir em diferentes momentos da vida e em qualquer faixa etária, muitas vezes sem um motivo claro. E ficamos no limiar da sobrevivência. É forte em mim a lembrança de Paulo Coelho e sua máxima: “o rio conhece o leito e as margens, seguindo seu caminho”. Sem conhecer a si mesmo, o homem não poderá acolher os medos de ser insuficiente, de ser desamparado. Não poderá arrancar as raízes da ilusão de poder governar todos e tantos eventos em sua vida. O melhor da velhice é a sabedoria de aprender a dançar conforme a música. Haverá quem ‘torça o nariz’, mas... isso não é ser alienado. Meu tio materno fazia da ironia uma grande aliada. Quando citava estas pérolas, “Devagar também é pressa./O apressado come cru./Quero que o mar pegue fogo pra comer peixe frito”, nosso dia ganhava alegria e leveza. Coloque o CD ou o vinil para tocar e dance. Sozinho ou acompanhado, mas... Dance. Dê a si mesmo o direito de experimentar o prazer de sair do comum, do esperado pelos ‘críticos de plantão’. Acalme o alvoroço interior, bailando suavemente ou num agito infernal, libere-se! Solte suas garras, caia na gandaia! Cansado, deixe o corpo suado se esparramar no chão. Respire profundamente. Expire devagar. E em paz por ser, apenas, quem você é, siga aquela canção: É preciso saber viver! Saber viver... *Academia Santista de Letras e Vicentina de Letras Artes e Ofícios