[[legacy_image_314094]] Continuo incomodado com a maneira reiterada e equivocada de combater o racismo. Perdeu-se o parâmetro do que seriam ações afirmativas. Vivemos no estágio da paranoia e da autossegregação. Há poucos dias, a ministra da Igualdade Racial declarou que a expressão “buraco negro” é racista, em inequívoca demonstração de falta de repertório cultural para ocupar cargo de 1º escalão no governo. Obviamente, não esperava que a ministra possuísse conhecimento sobre conceitos de astrofísica como “horizonte de eventos” e “velocidade de escape” – o que a impediria de enxergar racismo na Ciência (nos primórdios da astrofísica, os buracos negros eram chamados de estrelas negras porque se acreditava que a velocidade de escape impediria que a luz deixasse esses corpos celestes. Atualmente, sabe-se que esses buracos “engolem” a luz, por isso são chamados de negros – sem discriminação, simples assim). Mas, ainda que lhe falte cultura mínima para o cargo, bastaria um pouco de feeling para concluir que inexiste uma corrente astrofísica nazista, não há corpos celestes que possam ser, absurdamente, classificados como “inferiores”. A ministra, então, seria capaz de concluir que a Ciência não é racista. Em recente experimento social, pessoas que seriam submetidas à entrevista de emprego foram maquiadas com uma cicatriz na face. Sob a alegação de que a maquiagem precisava ser retocada, os pesquisadores removiam a cicatriz sem que o entrevistado soubesse. Concluída a entrevista, muitos candidatos declararam acreditar que não conseguiram a vaga de emprego em razão da cicatriz maquiada – que, na verdade, não existia. Parece-me que fenômeno semelhante ocorre com parte das pessoas negras. Nem todo gesto ou fala a elas dirigido se dá em razão de sua cor. Na agressão de Will Smith a Chris Rock não houve racismo – ao menos, nenhum veículo de comunicação tratou o episódio como manifestação racista, provavelmente porque o agressor também era negro. Há duas semanas, foi criada a bancada negra na Câmara dos Deputados. Confesso enorme dificuldade em enxergar a existência de uma pauta legislativa negra (essa confusão se aprofunda quando me faço a pergunta retórica: haveria, por isonomia, uma legítima pauta branca?). A bancada negra inclui parlamentares pretos e pardos. Abro parênteses: em minhas aulas de artes plásticas no Ensino Fundamental, aprendi que, ao misturarmos azul e amarelo, obtemos verde. Verde é outra cor, não é azul, não é amarela. Pardo não é branco, pardo não é preto. Não encontro sentido em se buscar igualdade racial por meio de medidas, falas e atitudes que segregam, que nos dividem. Quando nasci, o filósofo Albert Camus já havia falecido há uma década, mas sua declaração de que “toda ideia, levada a seu extremo, pode levar a sua própria negação” permanece irretocável. Não haverá eficiente combate ao racismo com a estratégia de se destacar o que nos difere: a mera e irrelevante cor da pele. E a autossegregação, travestida de autoestima, é combustível para a intolerância.