(Imagem ilustrativa/Pexels) As amizades dos tempos de adolescência são as que ficam na memória. Nelas, o que mais chama atenção são os apelidos. Quincas, Fominha, Biel, Cabeção… Cada um guardando um fato inusitado. O que poderia soar como preconceito era, na verdade, uma homenagem carinhosa que o grupo fazia. E ai daqueles que não tinham apelido. O meu não vou contar; deixe-me ser homenageado apenas pela lembrança dos meus contemporâneos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Adultos, em sua maioria, já não os temos mais. Restou uma vida de compromissos familiares e um trabalho, sempre exaustivos. Homens e mulheres voltados para si e para os seus, em um mundinho de realizações dos filhos. Ao final, filhos criados, saídos de casa, netos morando em outras cidades, restando ausências. A síndrome do ninho vazio, que não é uma doença, surge com a sensação de perda de sentido. Podem estar presentes a percepção de casa grande e silenciosa, a saudade constante, mesmo com filhos e netos bem, a dificuldade de reorganizar a rotina, a queda da autoestima ou sentimento de inutilidade, além de episódios de choro sem causa. Sentir isso é humano. Curiosamente, a síndrome pode escancarar questões antigas: relações conjugais negligenciadas, projetos pessoais adiados, uma identidade construída só no papel de pai ou mãe. O vazio não é apenas a ausência do filho, é o espaço que sobra quando não se sabe ainda o que colocar ali. O lado bom é que nesse momento também pode ser uma transição potente. Muitas pessoas redescobrem interesses, retomam estudos, criam novos vínculos, reformulam a relação com os próprios filhos — agora mais horizontal, menos dependente. Em alguns casos, a psicoterapia de apoio pode ser necessária. Mas muita atenção: cuidado para não fazer disso muleta para a sua infelicidade, nem supor que medicamentos sejam sempre a solução O que fazer, então? Aceitar o sentimento, sem culpa; manter vínculos com os filhos sem invadir suas vidas; investir em projetos próprios, fortalecer laços afetivos para além da parentalidade; praticar uma atividade física leve e regular, por exemplo. Em boa parte dos casos, esse período coincide com a aposentadoria, o que pode ser um fator complicador, ou não, como diria o compositor baiano. Pare de olhar a vida pelo retrovisor. Acenda os faróis, deixe a imaginação bater asas, envolva-se em novos projetos. Escrever pode ser um deles. Escrever como gesto consciente, com intenção estética, reflexão sobre forma, ritmo e ponto de vista. Não é dom mágico, mas também não é automático. Envolve leitura, escuta, tempo, reescrita. Dá trabalho. Mas o que você queria... não era exatamente isso? Marcio Aurelio Soares. Médico.