(Imagem Ilustrativa/Pixabay) Os dois casais se conheceram em uma praia de Santa Catarina. A amizade brotou logo. E se aprofundou no Rio de Janeiro, onde moravam. Seus apartamentos eram próximos. Eles se visitavam praticamente todos os dias. Seu relacionamento era um mar de rosas. Roberto e Luciana eram tímidos. Ele, como se verá, um falso tímido. Márcio e Flávia, mais comunicativos. Nada parecia perturbar a relação do quarteto. Até o dia em que Roberto começou a pousar seus olhos em Flávia com mais atenção e intensidade. Ao notar seu avanço discreto, ela foi logo prevenindo: “Beto, não existe a menor possibilidade de eu trair o Márcio”. Mas um sonho pareceu enfraquecer sua firmeza. Roberto surgia com uma roupa de linho bem ajustada. Ela viu e fraquejou. “Ele está lindão. Está ou é lindão?” Acordou incomodada. Mas se refez e se disse: “É apenas um sonho”. Quando os dois casais se encontraram dias depois em uma festa, Flávia sentiu um leve tremor e repetiu para si mesma o pedaço maldito da frase: “Ele é lindão”. Ela não contou o sonho para ele nem para ninguém. Pelo sim, pelo não, resolveu se testar. Queria ter certeza de que seu amor por Márcio era inquebrantável. Por isso, um pouco a contragosto, aceitou a sugestão de Roberto para se encontrarem e conversarem em uma praça neutra do Leblon. Ele chegou de óculos bem escuros. Ela ironizou: “Ficou cego?” Ele aproveitou a deixa para tentar ser romântico: “É para não ver seus pés perfeitos. Se conseguir vê-los vou querer beijá-los”. Ele falava ofegante, por causa de uma deficiência no coração. Já o ritmo do coração dela acelerou um pouco. E suas faces ficaram vermelhas. Para que ele não se sentisse estimulado pela reação do rosto dela, apontou o dedo em riste: “Beto, cada milímetro do meu corpo pertence ao Márcio. E só a ele”. A imagem que se seguiu abalou o amigo: “Beto, às vezes você parece um cachorro de padaria. Aquele que fica excitado com o cheiro de frango assando no forno. E que só não invade a cozinha porque o segurança está vigilante”. Roberto sentiu o golpe. A comparação arrasadora e o sol escaldante daquele verão o tornaram lívido. Perdeu o equilíbrio. Sem energia, seu corpo se torceu no ar. E se espatifou no chão. Flávia ficou apavorada e soltou um grito. Um homem que passava caminhando se agachou tentando acudir Roberto. Para sua surpresa, o desfalecido ostentava um leve sorriso. E seus lábios, entreabertos, pareciam beijar os pés que ele chamava de perfeitos. *Jornalista