Eu continuo impressionado com a capacidade de certos políticos de convencer parte da população de que estão conduzindo o país na direção certa, mesmo quando os indicadores apontam justamente o contrário. É um talento raro: transformar atraso em progresso e promessa em patrimônio político. O Brasil, que já constou entre as economias de maior potencial do planeta e fez parte do grupo que deu origem ao acrônimo Brics, acabou sendo um dos países que menos reduziu a pobreza e um dos que mais perderam espaço em relação aos antigos parceiros e a outras economias emergentes. Quando olho os números, encontro os resultados de verdade. No Relatório Global de Riqueza do UBS, que analisa 56 países, o Brasil aparece como o mais desigual. Na educação, o PISA nos mantém na parte de baixo da tabela, abaixo da média da OCDE e atrás de vizinhos como Chile, México e Costa Rica. Parece que, nesse campeonato, fazemos questão de disputar a lanterna. Com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a história se repete. O Brasil ocupa a 84ª posição, enquanto países do Leste Europeu, da Ásia e até vizinhos latino-americanos já alcançaram a categoria de desenvolvimento humano muito alto. E a renda? No ranking de PIB per capita ajustado pela Paridade de Poder de Compra, o Brasil aparece entre a 80ª e a 90ª posição. Entre 2011 e 2020, atravessou uma "década perdida", enquanto economias como Vietnã e Indonésia cresceram em ritmo acelerado e deixaram para trás a renda média do brasileiro. A infraestrutura também ficou para trás. O Brasil ocupa apenas a 70ª posição em qualidade de infraestrutura no ranking do Fórum Econômico Mundial e investe cerca da metade do necessário para acompanhar a média dos mercados emergentes. Somam-se a isso décadas de instabilidade fiscal, inflação, e fuga de capitais, o que limita o crescimento. Diante desse conjunto de indicadores, seria natural esperar uma cobrança por mudança de rumo. No entanto, as pesquisas mostram que uma parcela significativa do eleitorado continua apostando em quem administra esse cenário, na expectativa de que resolva problemas que ajudou a perpetuar. É nesse momento que deixo de tentar entender economia, estatística ou ciência política e passo a admirar outra habilidade: a retórica. Convencer alguém de que a solução é insistir na mesma receita, apesar de tantos resultados decepcionantes, exige um poder de persuasão que faria muito vendedor experiente pedir algumas dicas.