[[legacy_image_279256]] Para a geometria, a simetria é encontrada em figuras exatamente iguais em altura, largura e comprimento. E é possível encontrar outras acepções para simetria: fiquemos com simetria no sentido de equilíbrio. De outro lado, há assimetria em algo em desequilíbrio. É senso comum que, num regime democrático (sem me atrever a defini-lo, pois, segundo o presidente pindoramense da vez, “o conceito de democracia é relativo”) igualdade é palavra de ordem. Mas igualdade assimétrica é desigualdade. Se há pretensão de aprimoramento de nossa democracia, é preciso eliminar assimetrias ou, dentro do possível, reduzi-las em número e intensidade. São tempos de posicionamentos extremos. Tem-se a impressão (na verdade, certeza, em razão dos discursos coléricos que provocam temor nas pessoas equilibradas – que compõem uma maioria que vem se reduzindo de maneira vertiginosa) de serem ouvidos apenas os que radicalizam. Soluções radicais são, sobretudo, estúpidas. Daí, avançamos estupidamente. Se fossem ouvidas vozes não extremadas poderíamos ser mais cirúrgicos na superação de assimetrias, no caso, de desigualdades. Aqui, algumas de tantas assimetrias que somos forçados a aceitar com naturalidade, embora provoquem desconforto em qualquer pessoa que reflita sobre o assunto: se partimos da premissa de que toda vida humana é igualmente inalienável, por que nossa legislação atribui penas desiguais em caso de homicídio e de feminicídio, com pena mais gravosa para quem mata uma mulher? Obviamente, são bem-vindas as medidas protetivas que tutelam a segurança da mulher, especialmente aquelas que buscam afastar o agressor de seu convívio. Mas, uma vez ceifada tragicamente uma vida humana, deve haver maior ou menor reprimenda estatal de acordo com o gênero da vítima?; é adequado que alguns profissionais tenham 60 dias de férias ao ano? Somos, todos, filhos de Deus (ou do universo, ou de moléculas de água e glicose que aprenderam a pensar – depende da crença de cada um), mas por que férias em dobro apenas com base na presumida relevância de algumas profissões?; por que a punição mais grave imposta a um magistrado é a aposentadoria compulsória, com seus salários garantidos até o fim da vida? Não seria razoável que tivesse o mesmo tratamento dispensado a qualquer pessoa demitida por justa causa?; se chefes do Executivo e membros do Legislativo têm mandato, por que ministros dos tribunais superiores têm vitaliciedade nos cargos que ocupam?; se o culto ao nazismo é, acertadamente, considerado crime no País, por que não há a mesma repulsa legal ao comunismo? Na macabra estatística das mortes humanas em nome da bestialidade, Stalin e Mao não foram responsáveis por números muito superiores aos de Hitler? Usar uma camiseta com foice e martelo não afrontaria os direitos humanos na mesma intensidade de uma camiseta com a suástica? Ainda que, lamentavelmente, os fatos mostrem que o escritor Nassim Nicholas Taleb tem razão ao afirmar que as mudanças no mundo sempre ocorrem por meio de uma minoria extremamente intolerante, alimento a esperança de que a maioria tolerante consiga eliminar essas e outras assimetrias.