[[legacy_image_306161]] Na sala de nossas casas, assistimos assustados pela TV as imagens do assassinato a sangue frio dos três médicos que descontraidamente tomavam sua cervejinha num quiosque na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. De alguma maneira, este tiro nos acertou. Sentimos na nossa pele a dor dos tiros, a dor dos seus familiares, pensamos nos nossos filhos e nos imaginamos sentados naquelas mesas... Poderia ser qualquer um de nós. Não é só no Rio de Janeiro que neste ano 10 crianças foram mortas por balas perdidas, não é só na Bahia que 70 pessoas foram executadas. Estes tiros nos acertaram... Vivemos no País, no Estado de São Paulo e, particularmente, na Baixada Santista um estado de violência institucionalizada, uma convivência diária com a barbárie, com o crime organizado. Áreas das nossas cidades só podem ser percorridas se os “donos” deste pedaço derem sua autorização. Que o Waze não erre os nossos caminhos. Não faz muito tempo, a Sabesp precisava melhorar o abastecimento de água nos nossos morros e para levar uns equipamentos alugou um helicóptero. Contudo, ela foi impedida por traficantes e este equipamento só foi levado após negociação com o tráfico. Negociaram com o tráfico e negociar com traficantes os legitima! Convivemos diariamente com a notícia que o Porto de Santos é a principal rota de envio de cocaína para a Europa e esta notícia não nos escandaliza mais. Em 2006, policiais com e sem farda, em nove dias, executaram 425 pessoas no Estado de São Paulo e as mães de maio ainda hoje clamam por justiça, não é mesmo Débora? Recentemente, em Guarujá, como vingança à morte de um policial da Rota, 30 pessoas foram executadas, algumas no caminho da padaria, outras com filho retirado dos seus braços e executados no beco de alguma favela. Negros, pobres, que moram em barracos ou palafitas não por sua opção, mas porque foram excluídos por modelos sociais. Desta violência nossos soldados não escapam e também são vítimas. Não é só no Rio de Janeiro que só neste ano 10 crianças morreram por balas perdidas, não é só na Bahia que no mês passado 70 pessoas foram executadas. Com a lógica de que “bandido bom é bandido morto” e de que a posse desenfreada de mais armas traria mais segurança, brigas de trânsito ou de condomínio passaram a ser resolvidas à base de bala. Até quando? A banalização da morte que os noticiários de todos os dias desfilam nas nossas televisões são um retrato do tempo em que vivemos. Urge reagir. A morte de três meus colegas médicos, que se aperfeiçoavam num congresso científico, é mais que um sinal de alerta. Falência total do Estado. E para explicitar ainda mais esta falência, os três assassinos dos médicos tiveram suas mortes determinadas e executadas pelo “tribunal do crime”. Resolvida a questão. Resolvida? Estado! Que Estado? Nossa vez está chegando. Assassinatos. É preciso dar um basta.