(Pixabay) Há um mês refleti com os leitores a respeito das ilusões a que somos submetidos. E, nesta semana, pude constatar uma experiência que me desiludiu. No passado, talvez dez anos atrás, fui levado a conhecer o shopping mais badalado da nossa Capital. Naquela altura fiquei deslumbrado. As marcas mais afamadas do mundo lá estavam, aliadas à mais imponente arquitetura, que me fizeram sentir o menor dos mortais. Restaurantes maravilhosos, frequentados por pessoas tidas como milionárias, chegando com seus carros importados. A fina flor da sociedade paulistana desfilava com suas roupas sofisticadas. Iludido e impressionado aspirava um dia chegar àquele nível. Passaram-se dez anos e, de volta a esse mundo encantado, onde paira o consumo, eis que, chegando ao estacionamento, me deparo com uma Ferrari, cujo condutor se exibia com arranques potentes do seu motor fantástico. Outrora, iria me impressionar com aquele espetáculo. Hoje, além de não me revoltar, fico com pena. Sim, fiquei pesaroso ao ver um ser humano se perder na ilusão de que aquele carro seja um veículo, não só de transportá-lo, mas de ser um suporte do seu egocentrismo, capaz de torná-lo superior aos demais. Ao adentrar agora no shopping, bateu uma melancolia, por perceber tantas pessoas iludidas com o monumento ao consumismo. Um desfile de roupas e joias, em total ostentação, para uma simples tarde de feriado. Nesse mergulho amadurecido, já com outro sentimento de que o natural, o simples é que nos torna mais reais e verdadeiros. Essa teoria atual em torno do mundo vem demonstrando que até o meio ambiente se beneficia com o desprezo pela fobia de comprar, muitas vezes sem necessidade. Pessoas sorvem como forma de compensar o que lhes falta de sentimentos mais sensíveis ao belo e à natureza. E fica prevalecendo a busca da felicidade pela matéria, inevitavelmente. Novamente, chamo a atenção ao que o movimento existencialista da década de 1960 nos alertava - substituímos a possibilidade de existir pelo possuir. O que é um ledo engano. Ao fim da nossa vida, tudo que possuímos de material vai ficar. Só levaremos o que constituirmos no nosso ser, que é imaterial. O existir humano é uma conquista obtida pelo aprofundamento dos nossos sentimentos e valores, dos nossos vínculos sociais, que levam à nossa interiorização. Esse mergulho em nós mesmos é que propiciará a formação da nossa singularidade e personalidade. É uma decisão que depende de escolhas e que exige coragem e determinação. A psicoterapia é uma possibilidade que nos ajudaria nessa caminhada. *Arlindo Salgueiro. Psicólogo, psicoterapeuta na abordagem existencialista