[[legacy_image_335333]] O cinema em nossas vidas! Fico a refletir sobre o papel dele nos nascidos até os anos 60. No abandono do hábito de ir às salas comerciais, o cinema tem se resumido à telinha do notebook ou no formato TV na recôndita solitude de nossos lares, sem debates depois das sessões ou os comentários fortuitos de volta para casa. Faz tempo os streamings se tornaram nossos íntimos e procuro manter-me atualizado no melhor das produções entre filmes de arte, documentários e séries que provam pelo apuro de produção que noutro suporte o cinema sobrevive. Há muito aguardava Maestro, mesmo sabendo o que iria deparar: a vida do genial Leonard Bernstein que encarnou ao lado do alemão Karajan a persona de regentes no século 20. Dirigido, escrito e interpretado magistralmente por Bradley Cooper, a fita em si não inova, mas o personagem em cena é o espetáculo. Nunca reduzi a boa cinematografia a prêmios. Chaplin, Garbo ou Richard Burton nunca foram premiados. O Oscar para mim é só uma pitoresca festa americana, mas que Bradley merece qualquer láurea, isso é ponto pacífico. Assistindo-o interpretar, eu “vi” Lenny. Judeu, gay, boêmio, Bernstein superou todos os preconceitos da América branca, protestante e anglo-saxã, impondo-se como o regente quintessencial e quebrando as barreiras da música erudita e popular, levando Mahler com mesmo virtuosismo com que compunha musicais para a Broadway. Escrevi música erudita porque clássico é um período ou adjetivo para tantos outros gêneros artísticos. Afinal, Noel é um clássico do samba. O que destaco em Bernstein é a disseminação das aulas públicas, das suas apresentações televisivas, dos concertos para multidões pedagogicamente dissecados nota por nota, instrumento por instrumento. Por mais que meu purismo estético torça o nariz para um maestro que alterne a parceria com artistas como a coreógrafa Martha Graham e o poeta Auden, envolvendo-se com o universo pop de Gershwin ou Jeremy Robbins, Lenny cativava pela apaixonada crença na arte como redenção e superação para gerações de jovens desalentados. Vocês calculam quanto o acesso a cursos de música, teatro, escrita criativa ou qualquer arte pode inserir crianças ou adolescentes que doutra forma estariam desmotivados e sendo cooptados pela marginalidade, a drogadição e o crime? Inesquecíveis as manhãs de domingo nas quais nosso maestro Diogo Pacheco apresentava os Concertos para a Juventude, na TV Globo, nos anos 70, mimetizando as atrações exibidas por Bernstein. Há quanto tempo não vemos sinfônicas ou quartetos de cordas em TVs abertas? Certo que Bernstein era o Frank Sinatra erudito, o que importa foi o legado impecável de interpretações, o exímio repertório a serviço da paz em seu ecumenismo artístico performático. Eram os EUA do teatro Tennessee Williams, que acolhia Stravinsky e Callas, um espírito de tempo que anunciava os protestos pacifistas, Martin Luther King e maio de 1968. E não é que um brasileiro nascido no Ceará tem a ver com essa história? Nosso Eleazar de Carvalho, responsável pela criação da Osesp que regeria em todo planeta, inclusive Santos Football Music, do santense Gilberto Mendes, foi maestro da Filarmônica de Boston, dividindo a batuta com ninguém menos que Bernstein! Se Maestro não é uma obra-prima, vale pelo protagonista, ele sim excepcional. Recomendo.