(Reprodução) Certa vez, Ariano Suassuna disse: “O otimista é um tolo, e o pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. Reflito a frase e oscilo entre o desalento e a utopia. A literatura, quando verdadeira, não é mero registro; é um fio invisível, liga o presente à memória do que fomos e ao sonho do que podemos ser. Em tempos de velocidade e descartabilidade, ela deveria ser um refúgio, uma trincheira contra a banalidade e não um produto moldado pelo mercado. Ariano Suassuna sabia disso. Ele não escrevia para seguir tendências, mas para resgatar o coração perdido do Brasil, a essência de um povo, cuja dança e história ajudam a não esquecer quem é. Digam-me, onde estão os novos Suassunas? Onde repousam os criadores que compreendem: literatura não se faz apenas de palavras e sim, de encantamento, ritmo e raiz? Perambulamos por um mundo onde os livros perderam seu fio encantatório e os escritores esqueceram que a palavra é som, o verso é dança e a prosa é um grito moldado pelo barro do povo. O Movimento Armorial era um chamado ao retorno às tradições e à arte enraizada no povo. Suassuna via a grandeza do simples e defendia uma erudição sem perder a essência popular. Mas olhe ao redor. Os livros hoje falam em fórmulas, em mercado, em tendências frias e sem alma. Onde está o encantamento? Ariano via o mundo como um palco. Homens não deviam se contentar com existir, mas com contar, cantar, reinventar. E hoje? Restam monólogos e imitações sem coração. Há palavras, sim, mas poucas com arte, lirismo e, porque não, verdade. Eu me pergunto se ainda há espaço para os que não escrevem para vender, mas para perpetuar um legado. Pergunto se alguém ainda lembra que a literatura é um “auto”; um espetáculo de cores, ritmos e transcendências, não uma mera estrutura. Então, existe a possibilidade de eu cometer um erro ao me lamentar, porque Suassuna não lamentava. Ele criava. Escrevia porque sabia que a arte renasce, mesmo quando todos insistem e dizem: está morta! Ele ensinava como o espírito popular persiste, mesmo quando o mundo o nega. Talvez nos falte isso: menos queixa, mais força; mais um braço erguendo o estandarte da literatura brasileira e menos um lamento sobre a falta de herdeiros. Afinal, como o próprio Suassuna dizia, a literatura não é feita de certezas, mas de caminhos. E o caminho verdadeiro é aquele que nos liga à alma do povo, ao coração da história, ao que pulsa além do tempo. E quem sabe, em alguma esquina, em algum caderno amarelado, ou até mesmo em um computador de última geração, esteja nascendo, sem que eu saiba, um novo ariano... Vá-se lá saber. Ainda há esperança! *Escritor, ativista cultural e Diretor de Relações Públicas da Contemporânea – Projetos Culturais