[[legacy_image_359466]] O conceito de ecologia começou ser disseminado gradualmente a partir dos anos 70. Na arte, a necessidade de salvar a Terra teve raros pioneiros. Araquém Alcântara, organicamente fotografo, foi um desses visionários. Nascido em Santa Catarina, mas teluricamente caiçara, adentrou o Brasil passo a passo, desvelando sua realidade profunda. Recordo-o foto-jornalista aqui em A Tribuna e no Jornal da Tarde. Que saudade do Jornal da Tarde! Conheci-o melhor pela admiração que o maestro Gilberto Mendes cultivava. Fascinei-me por Terra Brasil, seu livro, o maior best seller de fotografia de arte em nosso país. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Inevitável o poeta não identificar o tanto de visceral poesia nos casarios, fauna e humanidade expressa em cada rosto. O ecossistema mágico de nossas reentrâncias litorâneas, recônditas praias entre a Jureia e os manguezais estuarinos, devem tê-lo inspirado para envolver pelas suas lentes iluminadas o continente sobreposto de biomas ainda intocados. Quando “leio” suas fotos , porque elas nos oferecem narrativas poderosas, me recordo do lindo capitulo que o célebre antropólogo francês Levi- Strauss dedicou a esta atmosfera que vai do cais de Santos ao planalto, atravessando uma pequena selva. Quando ambientalismo era um assunto até excêntrico, Araquém abria as picadas para o grande universo a exigir preservação ou restauro. É um desses artistas do pensamento militante pela ancestralidades que sempre mantêm-se vanguarda: os saberes arcanos, o espírito da mata, a alma dos rios, os povos nativos guardiões do verde. Quase obrigatório ver uma obra de Araquém como quem lê Guimarães Rosa ou Darcy Ribeiro. A gênese do instantâneo que se eterniza é um longo aprendizado. Sua fotos são impregnadas de “anima”, transcendência encarnada, raízes profundas. Faz-me lembrar cada clique da frase do fotógrafo americano Ansel Adams: “Não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, filmes que vimos, as musicas que ouvimos, as pessoas que amamos”. Seu livro Amazônia das Crianças é um verdadeiro manifesto para um mundo possível. Está para a fotografia como os relatos de Davi Kopenawa e Krenak. Num momento de tanto desnorteio ideológico, sua trajetória é exemplo maior de convergência dos dois preceitos salvadores a evitar o colapso: arte como farol e ambientalismo como ideal agregador pelo despojamento. Arte e ecologia amalgamadas sem transigir senso estético e nunca fazer da luta uma bandeira fugaz. O valor da sua obra está na sinceridade visionária dos seus propósitos: uma pedagogia pelo belo alumiado. Vibrei ao saber da exposição de Araquém na querida Pinacoteca Benedicto Calixto em junho. Desde a vinda de Mário Gruber não imagino momento mais significativo que o retorno de Araquém pelo que ambos significam para o Brasil e o mundo a partir deste porto mítico. Ambos daqui levaram aos quatro cantos nosso peculiar sentimento atlântico do mundo para painéis grandiosos do que nos resta de humano demasiado humano. Se alguém faz jus à ideia de mestre Barthes da arte fotográfica como câmera lúcida, imagética que faz pensar, logo me vem à cabeça Araquém Alcântara. Parabéns, Pinacoteca! Araquém nos diz muito sobre um porvir contra a barbárie.