Vivo da ciência história desde os últimos anos da década de 1980. E não recordo de ter lido ou escutado a frase que dá título a este artigo. Para ouvi-la, tive que percorrer quase 4 mil quilômetros de avião, em viagem de aproximadamente quatro horas. Depois, mais 400 quilômetros de barco no rio Amazonas, em viagem de 24 horas, até chegar à ilha de Tupinambarana, onde está o município de Parintins. E ter o prazer de acompanhar o 59º festival folclórico da cidade. Uma experiência simplesmente incrível. Tudo começou com a lenda da cabocla Mãe Catirina, que, grávida, desejou uma língua de boi na época do Brasil colônia. Em 1913, por meio de brincadeiras de rua na cidade referida, e sob influência do bumba meu boi do Maranhão, famílias criaram a estória de dois bois. O azul, Caprichoso, e o vermelho, Garantido. Com a ajuda da igreja católica, essa brincadeira de rua deu origem, em 1967, a essa festa popular dos povos da floresta amazônica. Incrível que já apreciei vários carnavais, festejos juninos e também religiosos. Hoje, não tenho receio em dizer que essa é a maior festa popular do Brasil atual. É tudo esplêndido: fantasias, toadas, organização, tecnologia e, sobretudo, orientação e fiscalização de populares da ilha de Parintins. É esplêndida a apresentação do boi azul ou do vermelho, pois, quando um se apresenta, a torcida do contrário fica no mais absoluto silêncio. As toadas musicais são todas elas exaltadoras dos povos nativos do Amazonas e região norte, sempre com base sempre no fortalecimento da origem desses povos nativos, de sua resistência, suas dificuldades e, claro, também, suas belezas refletidas nas fantasias das mais coloridas que já presenciei. Cada boi faz sua apresentação por um período de até duas horas e meia, quando o jurado analisa 21 itens que vão da galera (torcida de cada boi), passando pelas toadas, histórias do povo originário e outros itens. Uma ilha no Rio Amazonas, de aproximadamente 100 mil habitantes, passa a ter, no último final de semana de junho, aproximadamente 300 mil ou mais. A maioria vai para enaltecer a cultura popular do norte do Brasil e a influência do povo originário. Mais uma vez, sou ineficaz em adjetivos, como esplêndido, para, em poucas palavras, explicar a admiração pela experiência de viver essa manifestação da cultura popular do nosso imenso Brasil. Viva a cultura popular de norte a sul, de leste a oeste do nosso Brasil. Hoje saio muito mais brasileiro desse festival popular e convido todos que gostam do nosso país e apreciam a cultura popular brasileira que façam o sacrifício logístico para apreciar essa maravilhosa festa popular que é o festival de Parintins. Hoje me sinto muito mais brasileiro. A expressão do título destaca que a história, a cultura e a ocupação dos povos originários são muito anteriores à chegada da colonização europeia e da coroa portuguesa.