Imagem ilustrativa (Freepik) O empresário Lawrence Pih, chinês de nascimento e brasileiro de coração, concedeu recentemente uma entrevista ao podcast da jornalista Leda Nagle. Em um trecho da conversa, o filho de Leda Nagle, o ator Duda Nagle, perguntou-lhe, em tom curioso, sobre a construção de trens-bala que partem de cidades “fantasmas” rumo a lugar nenhum. Pih respondeu com uma única palavra que carrega um conceito profundo: “Antecipação”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A curiosidade da pergunta residia na centralização do poder na China o que, na visão do entrevistador, poderia favorecer o membro do partido comunista, executor do projeto, na estrutura administrativa do partido. Entretanto, a resposta de Lawrence Pih foi reveladora: por mais questionável que seja o modelo político chinês, a ausência de descontinuidade governamental permite que o país leve adiante projetos de décadas, sem temer mudanças de rumo. Cidades ainda desabitadas e trens-bala que conectam “lugares inexistentes” não são erros de planejamento, mas apostas de futuro, sustentadas por uma visão de Estado de longo prazo. Esse raciocínio, porém, não diminui o valor do sistema democrático ocidental. A alternância de poder, que inevitavelmente produz atrasos e, até, abandono em políticas públicas, também é um ativo precioso. Ela garante liberdade, diversidade de vozes e a correção de rumos quando governos se afastam dos anseios da população. A descontinuidade que tanto dificulta obras estruturais é, ao mesmo tempo, o que assegura vitalidade e renovação. Em outras palavras, a centralização chinesa e a alternância democrática representam respostas diferentes às necessidades e à cultura de cada povo. O que para nós seria um risco de autoritarismo sufocante, para eles é a condição necessária de crescimento planejado. O que para eles seria instabilidade e caos político, para nós é liberdade e pluralidade. A entrevista de Lawrence Pih, portanto, nos convida a refletir sobre algo maior: não existe um único modelo “correto” de governar. Cada sociedade encontra sua forma de equilibrar continuidade e mudança, estabilidade e liberdade. O importante é que seja um caminho escolhido, aceito e sustentado pelo povo que nele acredita, não nos competindo, nem à eles nem a ninguém, a imposição do modelo político preferido.