[[legacy_image_328564]] A vida é ciclo sobre ciclo, símbolos postos em nossos caminhos e o tempo soberano de todos nossos olhares para a magia dos círculos que se moldam. Numa visão ampliada, começamos desconfiar do conceito restrito de tempo: todos eles se contêm em nosso presente ainda quando desatentos. Os gregos sempre sábios dividiam o tempo em duas configurações: Cronos, o tempo medido, o tempo cronometrado, o tempo convencional dos minutos, e Kairós, o tempo interior, o tempo divino, o tempo além de passado, presente e futuro. Bom mesmo é dominarmos saudade, angústia e ansiedade olhando o quanto carregamos de tudo vivido e por viver em cada segundo. Atentos à passagem do ano notando a infinidade de todos os momentos que vão além de calendário. Somos seres necessitados das demarcações e me utilizo de uma atividade que mais se assemelha ao infinito: a leitura que nos leva a todo canto e eras sem sairmos tranquilamente de nós mesmos. A leitura, a música, a contemplação são grandes antídotos contra o temor de ficarmos sós, de não nos bastarmos em harmonia conosco, essa mania de lugares barulhentos, multidões frenéticas, deslocamentos incessantes. Hoje em dia, ninguém se sente pleno onde se encontra. Ler é um teste para medir seu tempo com o que importa. Uma recente pesquisa informa que no ano que passou 84% dos brasileiros não pegaram em nenhum livro. Não sei se os 16% são mais felizes, mas posso afirmar que têm mais facilidade para reconhecer alguma felicidade com os atributos do espírito em paz. Em José Saramago, recolho uma frase lapidar: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. A pressa é inimiga da reflexão e uma vida refletida é multiplicada. E para complementar o mestre português, recolho um lindo poema do doce Mário Quintana: “A vida é um dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê já são 6 horas: há tempo. Quando se vê, já é sexta-feira... Quando se vê, passaram 60 anos! Agora, é tarde demais para ser reprovado”. Em 2023, reli um clássico universal que com a maturidade percebo atualíssimo, O Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, que recomendo como leitura e remédio para todos os males que o ano novo herdou: a loucura dos fanatismos religiosos, a loucura dos nacionalismos, a loucura da divisão das pessoas em grupos ou bolhas de opinião. Se um papa de 87 anos está rompendo preconceitos milenares, por que não começamos 2024 nos desvencilhando das nossas miudezas morais tidas como dogmas? O velho e ótimo Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, definia bem etapas vencidas e novos desafios: “Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior e que será corrigida também até a edição definitiva”. Escreva com esmero seu novo capítulo, aproveite que nos trópicos o ano bom é iluminado pelo verão e o grande gesto existencial é sempre abrir a janela. Mire seus objetivos com as cores de Matisse, escolha uma trilha sonora com a poesia de um Cartola, imprima sua marca no seu destino sem ser conduzido pelo mercado, pela competição, pela ambição desmedida. Ir além das circunstâncias, não deixar-se vencer pelos reclamos ocasionais, ter diante dos olhos um horizonte límpido ainda que nublado pelo excesso de realidade. A vida é sonho quando se sabe construir os seus. Feliz Ano-Novo!